Artigos Sábado, 26 de Setembro de 2020, 14h:03 | - A | + A

DESASTRE AMBIENTAL

É preciso salvar o pantaneiro

Carlos Fávaro

As imagens do Pantanal em chamas, dos animais mortos, da destruição provocada pelo fogo e da fumaça que sufoca quem vive na região dominaram o noticiário do país nas últimas semanas. E não é para menos: trata-se de um desastre ambiental de grandes proporções. Mas esse é apenas um dos aspectos do problema: mais que um desastre ambiental, os incêndios no Pantanal em 2020 são consequência direta do desequilíbrio entre os pilares da sustentabilidade.


A palavra sustentabilidade costuma ser interpretada unicamente como proteção ao meio ambiente. Isso é um erro. Ela se apoia em três pilares, que precisam estar em equilíbrio: o pilar social, o pilar ambiental e o pilar econômico. Esse é o chamado ‘Tripé da Sustentabilidade”. E, assim como em qualquer tripé físico, é fundamental que os três pilares estejam igualmente firmes e dimensionados.


Na prática, isso significa que, ainda que exista resultado econômico com preservação ambiental, se não houver desenvolvimento social, não existe sustentabilidade. Da mesma forma, se houver apenas resultado econômico, mesmo que o ser humano seja beneficiado, não há sustentabilidade se o meio ambiente for prejudicado.


E esse é o aspecto que mais requer atenção na questão do Pantanal. Para além das medidas emergenciais de combate aos incêndios, o que nos preocupa é: como evitar que esse desastre se repita nos próximos anos? Uma coisa é sabermos que existe uma tendência a incêndios na região durante a estiagem – outra muito diferente é ficarmos reféns do clima e de atitudes criminosas, sem um plano para o desenvolvimento da região. Um plano robusto, de longo prazo, solidamente apoiado sobre os três pilares da sustentabilidade.


Eu moro em Mato Grosso há 34 anos, conheço bem a região. Estive há alguns dias no Pantanal, juntamente com a comissão externa do Senado Federal constituída para tratar do tema. De tudo o que vi e ouvi, o que mais me doeu foi a angústia do pantaneiro. A angústia de quem se sente abandonado. A angústia de quem vê sua atividade centenária, que primava pelo equilíbrio com a natureza, sendo mal compreendida e até criminalizada.


O Pantanal depende fortemente do turismo. Mas essa não é a única atividade econômica da região. Durante três séculos, o homem pantaneiro desenvolveu formas de interação com a natureza, atuando na pecuária, na agricultura familiar, na pesca. O homem pantaneiro não tem nenhum interesse em destruir o ambiente que lhe dá a vida e permite a subsistência de sua família.


Se existem melhorias que podem ser adotadas nos processos produtivos, o pantaneiro precisa ser qualificado para isso. Se existem investimentos que precisam ser realizados para que essas medidas se concretizem, o pantaneiro precisa de linhas de crédito adequadas, com acesso simplificado e juros baixos. Porque, se existe alguém que pode atuar diretamente na preservação do Pantanal, esse alguém é o pantaneiro.


A região toda depende de um equilíbrio delicado. E isso não apenas é possível, como é necessário. Existem projetos voltados à preservação das onças que indenizam o pequeno pecuarista quando um bezerro é atacado, evitando assim que ele tente eliminar o felino. Existem propriedades rurais em que a presença das onças foi transformada em atrativo para observação de turistas.


A combinação de diferentes atividades econômicas é essencial para que as famílias pantaneiras possam se manter na região, com uma visão de futuro sustentável. Se esse futuro passar pela observação à distância de aves e felinos, precisaremos da estrutura adequada de conectividade, por exemplo. Se passar pela intensificação do turismo rural, precisaremos tomar as medidas necessárias para preparar o pantaneiro para isso.


O Pantanal é vida, é água, é biodiversidade. Mas é, acima de tudo, gente. E o momento é este: na comissão do Senado estamos trabalhando para planejar um futuro sustentável, no qual as famílias pantaneiras possam garantir seu sustento em perfeito equilíbrio e simbiose com a natureza, para que as cenas de destruição que tanto nos angustiaram nos últimos dias fiquem para sempre na memória de um passado que, esperamos, nunca mais se repetirá.

 

*Carlos Fávaro é senador da República por Mato Grosso

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