Artigos Terça-Feira, 11 de Agosto de 2020, 10h:44 | - A | + A

CASALDÁLIGA

Adeus, amigo Pedro, defensor dos esquecidos

Paulo Speller

Pedro Casaldáliga foi o primeiro a receber a maior honraria concedida por uma Universidade, 33 anos depois de criada a UFMT. Coincidência, tomei a iniciativa em 2003 como reitor da Universidade, para marcar simbólica e concretamente que era uma honraria estratégica, para entregá-la a um soldado de Cristo, crucificado, também aos 33 anos.

 

Sugeri ao Conselho Universitário que subvertêssemos o rito de entrega do diploma supremo no claustro acadêmico e o levássemos a São Félix do Araguaia. Mato Grosso passava por profundas transformações pouco conhecidas pelos mato-grossenses, nativos e adotivos. Além da soja no norte do Estado, as condições de vida, de trabalho e de reafirmação cultural de indígenas, trabalhadores rurais e pequenos produtores eram destruídas com o custo da própria existência no nordeste de Mato Grosso, onde Pedro era o bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia (PSFA) e seu defensor incontestável.

 

São Félix estava a mil e duzentos quilômetros de Cuiabá, as estradas eram precárias. Fomos de ônibus e embarcamos em junho de 2003 numa aventura de 30 horas. Surpresa para a maioria, “descobrimos” aquele novo Mato Grosso, aquele Brasil que era aberto a sangue, suor e lágrimas.

 

A Prelazia de São Félix e a Uniselva foram criadas em 1970, ambas com o sentido de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa em Mato Grosso, defendendo os interesses dos pequenos que eram atropelados pelo crescimento desenfreado do Estado e formando pessoas e criando novos conhecimentos em benefício de todos. Ambas completam seu jubileu de ouro em 2020, celebrando 50 anos de existência!

 

Pedro nos recebeu com muita humildade às margens do rio Araguaia, consciente do papel civilizatório que tem a Universidade e de como podíamos contribuir para a defesa da vida dos esquecidos daquelas lonjuras. A cerimônia de entrega do diploma de Doutor Honoris Causa aconteceu com toda a glória e pompa exigida pelo cerimonial, herança de tradições que remontam à Idade Média desde a Universidade de Bolonha.

 

A defesa de Pedro dos direitos humanos e da justiça social dos esquecidos foi contundente, elegante e consistente, sob o testemunho do imenso Araguaia. A presença do povo da cidade e da região mostrava a sua diversidade e adesão à figura franzina daquele espanhol filho de camponeses de Balsareny. Experiente nas periferias da deslumbrante Barcelona e da capital imperial Madri sob o ditador Francisco  Franco, e curtido nas desigualdades coloniais da Guiné Espanhola, Pedro já se tornara liderança da Teologia da Libertação no Brasil e na América Latina, comprometido com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI),  e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), criadas na década de setenta sob inspiração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A ditadura militar imperava a ferro e fogo, sob a batuta do ditador de turno, General Garrastazú Médici, quando essa sopa de letrinhas surgia no cenário mato-grossense e brasileiro: UFMT, PSFA, CIMI, CPT.

 

Guerreiro que se entregou com paixão à defesa de indígenas e esquecidos de São Félix do Araguaia, de Mato Grosso, do Brasil, da América Latina, o Profeta Pedro, que nunca retornou à sua Catalunha, vive entre nós com o seu exemplo. Carinhosamente chamado de txeramunha pelas crianças Tapirapés na região do Araguaia, o avô Pedro permanece vivo entre nós. A UFMT se orgulha de seu primeiro Doutor Honoris Causa, sagrado às margens do Araguaia em 2003. Pedro vive!

 

Paulo Speller é Professor Titular Emérito e Reitor da Universidade Federal de Mato Grosso (2000-2008).

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COMENTÁRIOS

josias - 12/08/2020

Petista tem essa mania de dizer que quem morreu vive. Vive sim Paulo, vá perguntar para as pessoas que perderam entes queridos que se mataram em alto da boa vista por causa das estripulias do PT e seu honoris causa.

1 comentários

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