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Quarta-Feira, 24 de Março de 2021, 08h:42 | - A | + A

COMBATE AO CORONAVÍRUS

AL se alia ao vírus e à política de morte de Bolsonaro

Antero Paes de Barros

Um pacto com a morte, ou para ser menos drástico, um pacto com o vírus. Esta decisão da Assembleia Legislativa ontem que rejeitou o feriadão proposto pelo governador Mauro Mendes, como forma de fazer um distanciamento social, com um prejuízo menor para empresários e trabalhadores e preservando vidas.

 

Os deputados não se sensibilizaram com isso. Até parece que a Assembleia não sentiu nada por ter perdido um dos seus pares recentemente para a covid. Nem a morte do deputado, nem o fato do deputado Barranco ter ficado alguns dias intubado em São Paulo. Nem as 95 mortes de ontem em Mato Grosso. Nem o fato de termos atingido a triste marca de sete mil mortos no Estado. Nem as mais de três mil mortes ocorridas ontem em território nacional. Nem os quase 300 mil mortos no Brasil. Nada, nada disso sensibilizou os parlamentares.

 

As alegações de alguns parlamentares – conversei com alguns deles e li as declarações da deputada Janaina Riva de que o feriadão possibilitaria aglomerações e isso não seria bom. Mentem nas explicações, não se sabe para esconder quais argumentos. Os argumentos dos parlamentares são inconsistentes. Vejamos:

 

Com o feriadão haveria o distanciamento social por 10 dias. Só o fato das pessoas não precisarem mais utilizar o transporte coletivo já diminuiria bastante a circulação do vírus. Não é necessário ser nenhum cientista para prever isso.

 

- O feriadão geraria aglomerações. Então os deputados consideram que o liberou geral – que é como ficou – não causa aglomerações. Não existe aglomeração quando se utiliza o transporte coletivo? Ou os ilustres deputados não sabem disso?

 

É preciso ter sinceridade na relação com a população. Os deputados atenderam a pressão de comerciantes e empresários inescrupulosos e também a política de morte do presidente Bolsonaro. Foi uma adesão quase total da Assembleia ao bolsonarismo. A exceção foi o deputado Lúdio Cabral que ironizou os colegas “o único a votar com Mauro Mendes é quem lhe faz oposição”. Lúdio é médico e sabe da gravidade da votação da AL.

 

"Com certeza os deputados pensaram na próxima eleição. Tomara que todos cheguem vivos até lá"

Percebam que na semana passada, empresários, economistas, banqueiros, enfim os que conhecem o comportamento e as necessidades da economia fizeram uma carta aberta à nação, pedindo o lockdown. Eles afirmam na carta uma verdade que os deputados de Mato Grosso preferiram ignorar: sem a contenção do vírus, sem a vacinação acelerada não haverá a recuperação da economia. A paralisação e o distanciamento propostos pelo governo seria bom para a economia e para a vida.

 

Inexplicavelmente, a maioria esmagadora dos deputados ignorou completamente essas possibilidades e sem propor nenhuma alternativa ao Estado, como se esse não fosse o papel deles.

 

É preciso reconhecer que muitos trabalhadores precisam dos seus empregos. Também é necessário reconhecer que as pequenas e micro empresas do Estado precisam do apoio do governo para que possam sobreviver na crise. Nesse sentido, a AL perdeu a grande chance de dizer ao Estado: temos R$ 9,5 bilhões para investimentos, pois chegou a hora de diminuir os investimentos – que sejam R$ 8 bilhões apenas e o restante aplicado para apoiar os setores mais carentes da sociedade. Os deputados teriam ficado bem com as empresas que realmente necessitam, com os trabalhadores e não seriam coadjuvantes nessa política da morte desenhada pelo presidente Bolsonaro.

 

Nas próximas semanas, quando algum conhecido ou parente não conseguir ser atendido nos hospitais, pois não há mais vagas, lembrem-se dessa votação que ocorreu na Assembleia, onde a recomendação da ciência foi completamente ignorada.

 

Com certeza os deputados pensaram na próxima eleição. Tomara que todos cheguem vivos até lá. E que os eleitores que conseguirem sobreviver saibam fazer bem as suas escolhas.

 

A reação do governador Mauro Mendes à derrota também não foi boa: “isso mostra que não temos poder absoluto e agora esperamos a boa consciência de todos”. É por isso que não foi boa. Uma reação conformista em um momento que os líderes precisam ter coragem. Se o feriadão precisava passar pela Assembleia, o lockdown não precisa e passou da hora de decretá-lo em Mato Grosso.

 

É hora de pensar na vida. Não é hora de se preocupar com a próxima eleição. Para governar bem é preciso ter coragem. O governador que teve a coragem de fazer um bom programa de ajuste precisa agora se aliar à ciência e decretar o isolamento social por 10 dias, renovando-o se necessário.

 

Entre o lucro e a vida é hora de optar pela vida. Já!!

 

Antero Paes de Barros é radialista, jornalista e advogado. Foi vereador de Cuiabá, deputado constituinte e senador da República.

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