Artigos Terça-Feira, 15 de Setembro de 2020, 08h:00 | - A | + A

COLUNA LEPINSK

Alice no país da pandemia

Daniela Lepinsk Romio

Minha filha está com nojo de ver gente reunida.

 

Aos 10 anos de idade, passou os últimos seis meses praticamente trancada em casa. Isso significa que 7% da vida dela até agora foi em isolamento, descartado o período em que ela era bebê. Agora, ela vê cenas de festas em filmes e fica incomodada com a proximidade das pessoas.

 

Alice faz parte de uma geração inteira cujo impacto psicológico e emocional da pandemia da Covid-19 poderá se perpetuar e tomar formas que não imaginamos hoje. Ansiedade, depressão e outras doenças estão à espreita. 

 

Claro que existe uma grande parcela de crianças que talvez tenha a saúde mental preservada, mas à custa da saúde física de outros. Falo das crianças cujos pais deixam que comam churros e sorvetes em locais públicos, mastigando com a boca aberta. Que brincam de pôr e tirar a máscara, que tocam em tudo com mãos que acabaram de enfiar na boca, sem nenhuma orientação sobre comportamento seguro. 

 

Meu receio é termos uma geração formada por gente mal-educada e bem-resolvida de um lado – e pessoas conscientes, mas atormentadas por distúrbios emocionais e psicológicos de outro. Para mim, esse é um dos aspectos mais doloridos desta pandemia. E em pleno Setembro Amarelo, a saúde mental das crianças merece toda a nossa atenção. 

 

É importante lembrar que o tempo passa mais devagar quando se é criança. E que seis meses para quem tem 8 ou 10 anos são muito mais impactantes do que um semestre na vida de um adulto. A falta dos amigos por tanto tempo é cruel. Por melhores que sejam as aulas online, existem inúmeras outras trocas presenciais proporcionadas pelo ambiente escolar que estão suspensas.  

 

Está interrompida a formação dos grupos de afinidade. As primeiras paqueras também. Assim como foi suspensa a correria do recreio. O lanche na cantina. A pipoca na saída da escola. A paradinha no balanço da praça. O 'mãe, posso ir dormir na casa da Helena hoje? A mãe dela deixou'. As visitas aos avós depois da aula.

 

Alice carrega nos olhos verdes uma profundidade que impressiona. Ela é madura, sensível, doce e dona de uma enorme capacidade de compreensão sobre as situações que a cercam. É afetuosa. Mas está com nojo de ver gente reunida. 

 

Quanto tempo levará até que aquela preciosidade de menina com alma de artista volte a se sentir à vontade em um grupo grande de pessoas? Quanto tempo levará até que ela volte a expressar fisicamente seu afeto por alguém sem medo de se contaminar – e de contaminar um ente querido que faz parte de grupo de risco?

 

Minha filha integra uma parcela privilegiada da população. Aluna de escola privada, tem acesso a um computador e internet e consegue assistir às aulas todos os dias. Nossa família é bem pouco convencional, porém muito bem estruturada (duas psicólogas já me atestaram isso, não sou que estou dizendo). O isolamento dela é vivido em um ambiente de atenção, amor e acolhimento. Se ainda assim ela sofre, como mensurar o estrago desses meses de isolamento na vida de quem não tem a mesma estrutura? Crianças sem acesso às aulas online. Sem proteção contra adultos abusadores. Sem a possibilidade de um diálogo, sem acesso a apoio psicológico. 

 

Precisamos de políticas públicas urgentes direcionadas à garantia de apoio psicológico às crianças e adolescentes, sob pena de enfrentarmos, em um futuro muito próximo, um agravamento importante dos índices de depressão, ansiedade, síndrome do pânico e outras doenças cujos efeitos podem ser fatais.

 

E precisamos também de seriedade no enfrentamento à Covid-19. Essa sensação de que a pandemia passou não é real. Ainda estamos perto de mil mortes diárias. Se nos acostumamos com esse número, é porque as mortes foram banalizadas a um nível que nos desumanizou. Quanto mais nos desumanizamos, mais anestesiados e descuidados ficamos. Paradoxalmente, quem mais se preocupa com as pessoas abre mão do contato físico. Estamos retomando inúmeras atividades. Em grande parte dos casos, isso é necessário e positivo, mas os protocolos de segurança precisam ser levados a sério.

 

Assim como a questão da vacina – que ainda nem existe no mercado e já está sendo combatida pelos obscurantistas que tomam alucinógeno vencido misturado com catuaba e diesel. Já vi até vídeo dizendo que a vacina vai trazer um chip pra roubar o DNA das pessoas. Sério. E o pior: muuuuita gente acreditando! Sim, as definições de ‘bizarro’ foram atualizadas com sucesso. Aliás, a galera do anti-vacina poderia bem dar a mãozinha pros terraplanistas e ir todo mundo procurar a borda do mundo pra se jogar. Porque essa turma deixa no chinelo até os personagens mais insanos do País das Maravilhas.

 

Enquanto isso, minha Alice segue presa nesse pesadelo de riscos reais e teorias de conspiração estapafúrdias – e está com nojo de ver gente reunida. Porque ela tem um coração de ouro e porque é devota da ciência. E eu estou com nojo de ver gente retrógrada e obscurantista, que luta contra as únicas ações que realmente podem reduzir os impactos da pandemia sobre todos nós, salvando vidas e preservando a saúde mental da geração que construirá o futuro do país. 

 

Daniela Lepinsk Romio é profissional de Comunicação. Escreve sobre temas aleatórios, incluindo Comunicação, Comportamento, Cultura, Política e o que mais se sentir à vontade para opinar sobre.  

 

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