Artigos Quinta-Feira, 13 de Junho de 2019, 14h:36 | - A | + A

VIOLÊNCIA NO BRASIL

Atlas da violência é o retrato de um país em guerra

As maiores vítimas da violência no Brasil são jovens e negros, majoritariamente do sexo masculino.

Amauri Teixeira

Na próxima terça-feira, o Senado pode tornar sem efeito o Decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro que facilita o acesso ao porte de armas. Esta semana, por 15 votos a 9, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou uma série de Projetos de Decretos Legislativo que, na prática, enterram a proposta de Bolsonaro. Os senadores também aprovaram que a tramitação dos projetos ocorra em regime de urgência.  

 

Divulgado na semana passada, o Atlas da Violência 2019, um amplo estudo sobre a segurança pública, revela que o Brasil vive uma situação de guerra e deixa evidente o grave erro do atual governo ao facilitar a posse e o porte de armas de fogo. Os 65.602 homicídios registrados em 2017 reforçam a incomoda posição de estar entre os países mais violentos do mundo e confirmam que o número de assassinatos no Brasil supera mortes provocadas pelas guerras da Síria e do Iraque.

 

Elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o relatório de 116 páginas registra que 76,9% dos homicídios masculinos foram cometidos pelo uso de arma de fogo, percentual que chega a 53,8% no caso do assassinato de mulheres. É impossível acreditar que a ampliação do acesso às armas de fogo, principal instrumento das mortes violentas, contribua para a redução dos assassinatos.

 

O Atlas da Violência contabiliza 305.069 homicídios no Brasil entre 2013 e 2017. Na comparação com o ano de 2016, em 2017 houve um aumento de 4,2%, o que representa uma taxa de 31,6 homicídios por 100 mil habitantes e coloca o Brasil à frente de países como México, Colômbia e Guatemala, no ranking da violência. Nos anos de 2016 e 2017, enquanto o Brasil registrou 128.119 homicídios, na guerra da Síria, de acordo com o Departamento de Pesquisa Sobre Conflito e Paz da Universidade sueca de Uppsala, foram mortas 82.246 pessoas. Para se ter uma ideia da dimensão da tragédia brasileira, o número de homicídios em 2017 equivale ao extermínio de uma população como a do município de Lucas do Rio Verde.

 

 

Dados do Atlas da Violência 2019

Mais armas, mais homicídios

 

Não faltam alertas para as graves consequências do acesso às armas. Um estudo realizado por três pesquisadores americanos, John J. Donohue e Abhay Aneja, da Universidade de Stanford, e Kyle D. Weber, da Universidade de Columbia, desmonta as teorias que associam a posse de armas à redução da violência. Depois de analisar a ocorrência de homicídios nos estados americanos que aprovaram leis que permitem o porte de armas, os pesquisadores chegaram à conclusão que, no intervalo de 10 anos, houve um aumento de 13% a 15% de mortes causadas por armas de fogo.

 

Atualizado em abril deste ano, o estudo conclui que o porte de arma de fogo pode transformar situações corriqueiras em tragédias. “Há claramente casos em que portadores de armas aumentaram o número de homicídios matando alguém com quem eles ficaram zangados por causa de uma questão insignificante, desde o entroncamento em uma rodovia, conversas ao telefone em um teatro, até a música alta em um posto de gasolina”, diz o relatório.

 

As maiores vítimas da violência no Brasil são jovens e negros, majoritariamente do sexo masculino. Entre homens na faixa entre 15 e 29 anos, a taxa de homicídios salta para 130,4 por 100 mil, enquanto a taxa geral é de 31,6 por 100 mil habitantes. Na estratificação racial, de acordo com os dados do estudo, 75,5% das vítimas de homicídios eram indivíduos negros. “Proporcionalmente às respectivas populações, para cada indivíduo não negro que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente, 2,7 negros foram mortos”, conclui o relatório.

 

 

* Amauri Texeira é jornalista e consultor de marketing político

 

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