Artigos Terça-Feira, 28 de Julho de 2020, 08h:48 | - A | + A

DIVÓRCIO NA PANDEMIA

Casamentos testam positivo para covid-19

Isaias Lima

Casamentos testam positivos para Covid 19. Segundo levantamento dos cartórios o número de divórcios consensuais realizados pelos cartórios de notas do país, durante a pandemia do novo coronavírus, aumentou 18,7%.

 

Em números absolutos, os divórcios consensuais passaram de 4.471 em maio para 5.306 em junho de 2020. Houve crescimento em 24 estados brasileiros, especialmente no Amazonas (133%), Piauí (122%), Pernambuco (80%), Maranhão (79%), Acre (71%), Rio de Janeiro (55%) e Bahia (50%).

 

Mesmo que a separação esteja na lista dos fatos que mais geram stress aos indivíduos, há muitos casais que decidiram tentar ajustar o relacionamento em terapias online antes de irem direto para o divórcio, pois levam em consideração o tempo de vida juntos, os filhos e o stress de recomeçar.

 

A questão que muitos levantam é:  A culpa é da pandemia? A resposta é não. A culpa está no fato de termos sido obrigados a conviver full time com o cônjuge/parceiro(a). Entendo que as regras dos relacionamentos não se aplicam apenas aos casais héteros ou casados oficialmente, mas a toda relação entre duas pessoas que tenham em algum momento de suas vidas decidido viver juntos por entenderem que tinham sentimentos em comum que valeria a pena essa caminhada conjunta. Assim os números podem ser bem maiores.

 

Nos anos cinquenta a sociedade tinha papéis bem definidos sobre qual seria a “tarefa” de cada um dentro de uma família. No geral homens saíam pra trabalhar e mantinham a casa e as mulheres cuidavam dos filhos, da casa e “servia” o marido sexualmente. O padrão de ser feliz consistia em que cada um fizesse sua parte sem reclamar, e assim o mundo girava sem que houvesse reclamações. A partir dos anos sessenta,  grandes movimentos trouxeram uma nova perspectiva em termos de valores morais, igualdades e direitos em funções de convivência a dois, como: movimento hippie, das mulheres  que se tornou mais popular em maio de 1968, quando as mulheres começaram a ler novamente, o livro The Second Sex (1949), woodstock (1969), dentre outros.

 

O que parece ser comum a essas duas gerações (e por geração aqui me refiro a mentalidade e não a um período de tempo) é que o tempo de convivência juntos eram limitados. No geral, sempre houve nessa nova mentalidade uma reclamação de que o parceiro(a) trabalha muito, fica muito tempo fora, gerando falta na outra parte, e com isso programava-se férias, passeios, idas a cinema e restaurantes como meios para promover um tempo junto entre casais e, claro, com os filhos. Essas pequenas quebras de rotinas nutriam a falta de presença do parceiro(a) dando um fôlego para a relação com demonstração de afetos, sexo , descontração e atenção focada para preencher a falta reclamada pelo outro. Também mascara, esconde, ou em linguagem psicanalista, recalca  as frustrações e decepções que estão ali, mas nenhum dos dois quer discutir. Assim a vida a dois segue com pequenas concessões que visam não trazer a tona insatisfações com o outro.

 

A pandemia trouxe uma nova configuração repentina que ninguém esperava e com isso escancarou de forma rápida aquilo que demorava anos para se tornar insuportável. 

 

Quando casais me procuram dizendo que estão brigando por tudo, digo a eles que as pequenas razões de suas brigas de devem ao fato de que há uma “área sensível”, ou seja, existe um motivo que causa dor e mágoa que está tentando ser ocultada a muito tempo. As pequenas coisa irritam porque tocam nessa "área sensível" oculta.

 

Nós trazemos para dentro de qualquer confinamento o que está em nosso interior. Ficar confinado é ter que conviver com as emoções mais profundas, sobre nós mesmos e sobre o outro.

 

Relacionamento tem sua raiz relação do latim ‘relatio’ que significa ato de relatar ou narrar, trazer algumas coisa de volta, quando se relaciona com alguém as emoções são relatadas mesmo que não se perceba. A pandemia fez que aquilo que era disfarçado e diluído pelas muitas ocupações e artimanhas inconscientes viessem a toda como uma flecha de ponta venenosa e sem preparo para lidar com realidade do outro. Aquilo que vinha sendo empurrado como uma ilusão de que um dia ele(a) melhora, quando vier os filhos, quando os filhos entrarem na escola, quando tiver aumento de salário, quando ele parar de beber, quando ela parar de reclamar.

 

Casais entraram do jeito que já vinham, mas o confinamento foi a lente de aumento e sob uma ameaça de um vírus letal, a obrigação, a irritação e a lembrança de fatos que já os consumiam foram vistos de forma exponencial e a solução mais prática e objetiva foi o divórcio. Ele foi visto como uma chave mágica para minimizar a insuportável dor de ver o relato de uma história infeliz.

 

Minha fala sempre é de que é possível que o divórcio ajude sim, mas somos impelidos a conviver e amanhã você buscará uma nova pessoa para relacionar-se. Antes de achar que só o outro é o problema assuma sua parte e trate, porque viverá uma nova história e se entrar emocionalmente estragado não tem como sair inteiro. 

 

Cure-se o máximo possível, vida interior saudável trarão relacionamentos mais saudáveis. Um dia haverá uma vacina para o vírus, mas para suas relações é preciso que providencie sua cura, não responsabilizando nem o COVID-19 nem o outro.

 

Isaias Lima é psicanalista

 

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