Artigos Terça-Feira, 11 de Agosto de 2020, 07h:30 | - A | + A

COLUNA LEPINSK

Com quantas lápides se acorda um país?

Daniela Lepinsk Romio

Ultrapassamos no último fim de semana a trágica marca de 100 mil mortos e 3 milhões de contaminados por Covid-19 no Brasil – e, mesmo assim, grande parte do país ainda segue anestesiada, como se vivesse em uma realidade paralela. Os números são assustadores. Mas o governo federal comemorou – isso, comemorou – em redes sociais o que avalia como baixo índice de mortes por milhão de habitantes. As postagens não mencionam o fato de que o país abriga apenas 2,7% da população mundial – mas tem quase 14% do número total de mortos por Covid-19. Sim, dos 729 mil mortos registrados no mundo até segunda-feira, 10 de agosto, 101 mil estavam no Brasil.

 

Na mesma data em que chegamos a esses angustiantes 100 mil mortos, perdemos Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, em Mato Grosso. Casaldáliga não estava com Covid-19. Aos 92 anos e com a saúde fragilizada havia tempos, sua partida acabou recebendo destaque menor do que o merecido, em função do triste recorde. Mas não se pode deixar de notar a coincidência simbólica: a morte do religioso, cuja vida foi marcada pela atuação fortíssima em defesa dos direitos humanos, especialmente dos povos indígenas, no dia em que cravamos 100 mil lápides decorrentes de uma epidemia gerida por um governo avesso aos ideais de Casaldáliga.

 

Avaliando as reações das pessoas em diversos círculos de contatos ao longo do fim de semana, tento expressar aqui minha preocupação com dois fenômenos que estão se intensificando e que merecem muita atenção:

 

O primeiro deles é a polarização das opiniões, que já extrapolou o espectro da política. Cada vez mais pessoas parecem estar usando óculos que só permitem enxergar em preto e branco – mas preto e branco mesmo, sem nenhum tom de cinza, nenhuma nuance – um fenômeno meio à Saramago. Com essas lentes, quem lamenta a morte de Casaldáliga é comunista. Quem critica o presidente é automaticamente petralha. Quem discorda de uma decisão do STF é classificado como bolsominion. Quem não boicotar a Natura por ter retratado um pai trans na homenagem do Dia dos Pais é rotulado como traidor da família tradicional brasileira.

 

Quando se polarizam as discussões dessa forma, fica impossível analisar qualquer tema em profundidade. O que se impõe é o tal ‘viés ideológico’ e as pessoas perdem a oportunidade de ampliar os conhecimentos, compreender melhor a perspectiva do outro, construir respeito à opinião alheia e até mesmo mudar de opinião. Existem infinitos tons de cinza entre o branco e o preto. E infinitas outras nuances quando se abre a cartela completa de cores. Um mesmo assunto muito raramente vai se esgotar em apenas duas possibilidades.

 

O que nos leva ao segundo aspecto preocupante, que é justamente é o fim do debate qualificado – consequência, em parte, da polarização, somada ao narcisismo das redes sociais, com a necessidade de ‘lacrar’ e gerar buzz. Responda com sinceridade: quantas vezes em uma conversa você ouve seu interlocutor com o objetivo principal de pensar na sua própria resposta? Essa tem sido a regra: a escuta não tem foco real em compreender o que o outro está dizendo, e sim em como rebater.

 

Quando se escala essa situação para os grupos de Whatsapp, a situação é ainda pior: ninguém realmente lê ou dá atenção ao que os outros postam. O que importa é postar, compartilhar, ‘fazer sua parte’. Opinião virou argumento. Experiência pessoal é prova científica. Boatos são ressuscitados e repaginados a todo momento como fonte de dados. A manipulação da informação é descarada.

 

A polarização exagerada, o debate raso e a falta de certeza sobre o que é real ou não podem estar por trás dessa sensação de apatia, que permite a tantas pessoas ignorarem a dimensão de um dado impactante como o de 100 mil mortos – e continuarem reunindo gente e fazendo festas semiclandestinas, regadas a cerveja e música ruim em volume insuportável.

 

Abro um parêntese aqui (adoro parênteses) para reafirmar que o Jornalismo nunca foi tão relevante. A despeito de toda a celebração pela democratização do acesso à fala nos últimos anos, com a internet e as redes sociais – é melhor correr para o bom e velho jornalismo quando estiver buscando credibilidade. A curadoria das informações, o tratamento com responsabilidade, o conhecimento técnico dos processos e a conduta profissional são fundamentais para que, em meio a tanto ruído e excesso de informações reais e fantasiosas, haja alguma fonte de consulta que seja confiável. O jornalismo não é perfeito e também se perde, é claro – afinal, é feito por pessoas, também sofre o impacto das transformações e as empresas podem ter seus alinhamentos editoriais. Nada que diversificar suas fontes não resolva: ninguém é obrigado a se informar apenas por veículos de um único grupo. Fecha parênteses.

 

Para concluir: em pouco mais de um mês, entraremos em franca campanha eleitoral nos municípios brasileiros. O cenário é o mais complexo possível. Sequelas inesperadas da Covid-19 começando a aparecer, a corrida pelas vacinas tomando contornos mercadológicos obscenos, mesmo trazendo uma promessa quase mística de alívio e normalidade na volta da esquina – enquanto a economia do país agoniza. Com tudo isso somado à necessidade de isolamento, fica claro que as campanhas tradicionais também serão reinventadas, para usar a palavra da moda.

 

Estamos pagando um preço alto demais pela atuação vexatória do governo brasileiro, ao estimular o pensamento anticientífico, ser grande produtor e propagador de informações falsas, promover pesada campanha ofensiva ao jornalismo como um todo e conduzir uma das piores gestões da crise do coronavírus do mundo. Está em nossas mãos a escolha de continuar por esse caminho de desrespeito e obscuridade ou iniciar um processo de evolução, escolhendo gestores municipais mais comprometidos com o desenvolvimento socioeconômico real e pautados por valores éticos. Não precisamos de mais 100 mil mortos para compreendermos isso.

 

Daniela Lepinsk Romio é profissional de Comunicação e escreve às terças-feiras a Coluna Lepinsk, abordando temas aleatórios, incluindo Comunicação, Comportamento, Cultura, Política e outros.

VOLTAR IMPRIMIR

COMENTÁRIOS

Copyright 2018 PNB ONLINE - Todos os direitos reservados. Logo Trinix Internet