Artigos Terça-Feira, 13 de Agosto de 2019, 13h:37 | - A | + A

"FAIXA DE GAZA"

Diálogos Inviabilizados

Roberto Boaventura da Silva Sá

Se é pela palavra – materialização de complexas elaborações de nossos cérebros – que nos diferenciamos dos outros animais, é também por ela que estamos a naufragar em nossas interações cotidianas. De uns tempos para cá, no Brasil, é como se tivéssemos construído um tipo de Faixa de Gaza para nossa convivência.

 

Nas redes sociais, tudo pode ficar ainda pior, até porque muitos se sentem protegidos por uma simples tela; assim, a todo instante, destilam ódio de todo tipo.

 

Com o triunfo do pensamento de direita nas últimas eleições, marcado não apenas pelo conservadorismo, o que seria normal, mas pelo reacionarismo, o que é inconcebível, a perversidade de muitos vem ganhando dimensão antes impensável. Nesse cenário, nunca tanta gente desprovida de informações consolidadas falou tanto; e com ares de donos da verdade!

 

De minha parte, venho acumulando agressões que chegam da opinião de leitores conservadores/reacionários sobre meus artigos, mesmo muitos sequer compreendendo a completude do que escrevo.

 

Das agressões, dois itens se destacam. Um está ligado a quem, profissionalmente, realmente sou: docente com doutorado; o outro, à crítica política que tenho feito ao atual governo. Aliás, esta minha postura faz muitos leitores concluírem que sou pertence àquele tipo de esquerda incapaz de se autocriticar; todavia, fui crítico constante dos (des)governos petistas.

 

Ignorando o histórico de minhas opiniões, para me atingir na condição de professor, esse tipo de leitor se utiliza, via de regra, da ironia, marcada, em geral, pelo uso de aspas já na invocação. Ex.:

 

“Nobre professor’, é lamentável essa didática/narrativa da esquerda ao se referir a GUERRILHEIROS, como sendo pessoas de resistência ao regime militar! Temos que, realmente, passar a limpo esse período e dar nomes, motivações e consequências desses grupos terroristas”.

 

O próximo exemplo ataca minha titulação. Na transcrição, preservo sua sofrível redação, sem nada destacar com o “sic”:

 

“é bom ja-ir se acostumando com a verdade com o que é certo, o mal não pode prevalecer para senpre o bem sempre vence o mal, que professor e que doutor em jornalismo (grifo meu). esta esquerda comunista, populista e socialista pira com o novo governo que quer o bem do nosso povo”.

 

Os dois exemplos podem ser conferidos nos comentários sobre meu artigo publicado no site Mídia News de 01/08/19.

 

E assim se sucede com outros leitores que não coadunam com minhas opiniões. Mas até aí, “a gente vai levando”. Todavia, um dos leitores passou dos limites; e o fez em meu Facebook, que é público, pois praticamente só compartilho ali meus artigos e chamadas para algum literomusical que apresento esporadicamente.

 

Por conta de uma “Carta Aberta” que escrevi recentemente ao governador de MT, um advogado do RS, sem me conhecer, escreve:

 

“Quem é Roberto Boaventura? Ahh, professor de universidade pública? Entendi. Mais um vadio tentando segurar a boquinha”.

 

Possivelmente amparado nas acusações de que servidor público é privilegiado, que a balbúrdia é o que prevalece nas universidades, além dos ataques feitos ao exercício científico, de modo geral, a agressão desse leitor é feita sem exceção; ela atinge todos os professores das universidades públicas.

 

Por conta disso, como fui citado nominalmente, já estou judicializando a acusação por danos morais. Com raras exceções, nas universidades, sem balbúrdias, mas com senso crítico, não há espaço para vadios. Trabalhamos muito mais do que a ignorância e o preconceito de alguns possam supor.

 

Roberto Boaventura da Silva Sá, Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP (rbventur26@yahoo.com.br)

 

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