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Sexta-Feira, 26 de Março de 2021, 14h:13 | - A | + A

DEBATE

Discussão idiota: perfil político vs. perfil técnico

Ércio de Arruda Lins

Sistematicamente, temos assistido a um absurdo embate que de quatro em quatro anos se renova: os secretários ou ministros de um governo devem ter perfil técnico ou político? Um “cacique” local chegou a dizer que técnicos de “meia-tigela” não respeitaram o povo. Outro, disse que governo “tal” deixou a “vaca ir pro brejo” com um staff técnico para, somente então, chamar a classe política. Chegou a “cavalaria”!

 

Todas essas falas poderiam ser rebatidas dizendo que o País está nesse atoleiro por culpa exclusiva dos políticos. Basta ver no que redundou a política da “nova matriz econômica” brasileira. Também poderia ser dito que o maior escândalo de corrupção do mundo – leia-se: Petrobras – deu-se por obra dos políticos, que exigiam propinas de fornecedores para encher seus próprios bolsos e financiar suas milionárias campanhas eleitorais. O que falar então da desorganização do Ministério da Saúde, completamente perdido e desorientado no mar revolto da pandemia, onde um general, segundo as “boas” línguas “especialista em logística”, alçado ao posto pelo político de plantão, não conseguiu sequer planejar o amanhã. 

 

Todavia, seria apequenar o debate e cair na vala comum das manifestações insanas das redes sociais, caso estes argumentos fossem aqui repisados. Por óbvio, a discussão está equivocada. Ela deve concentrar-se na capacidade de gestão do indicado. 

 

No Brasil, em razão da absurda pluralidade de partidos, o chefe do Poder Executivo tem que administrar um sistema de “coalizão”, abrigando na máquina pública os variados espécimes da fauna política. Um dos políticos destas bandas gosta de dizer que “quem ajuda a ganhar, ajuda a governar”. O problema é que quem ajuda a ganhar, chafurdando na campanha, nem sempre é preparado para ser gestor. Talvez a pessoa tenha participado justamente pela esperança de ser recompensada com uma “boquinha” no serviço público. Vai saber!

 

O que legitima alguém a ser indicado a algum cargo não é o fato maniqueísta de possuir perfil “político” ou “técnico”, mas fundamentalmente ser competente. Se a pessoa tem competência, por certo saberá amoldar-se ao cargo. Vai agir tecnicamente quando for preciso, mas vai flexibilizar politicamente quando for necessário, sem descurar da legalidade e do cuidado com a “res pública”.

 

Em verdade, como qualquer empresa, para cada cargo exige-se um perfil. Uns vão precisar de maior interatividade política, como é o caso da Casa Civil. Outros, vão demandar pessoas com conhecimentos altamente especializados, por exemplo, a Controladoria Geral. A pergunta que se faz é: os governantes eleitos têm nomeado para cargos públicos pessoas competentes? Segundo um dileto amigo, não!

 

Para esse cético amigo, os gestores, pressionados pelos partidos políticos ou em razão de sua própria torpeza, têm trazido para a administração pública, salvo exceções, pessoas despreparadas, sem conhecimento da máquina e, pior, incompetentes, que indevidamente recebem um poder que jamais deveriam ter. Resultado? Serviços públicos de péssima qualidade, onde nada funciona bem. A culpa é de quem? Dos técnicos ou dos políticos? 

 

A culpa é do incompetente, do despreparado, do inconsequente, do vaidoso, do pavão, que insiste em querer administrar o que não sabe. Que utiliza as relações políticas-partidárias para galgar postos para os quais não está preparado. No entanto, o culpado maior é quem o nomeou. É o mais despreparado de todos, mas esse o povo elegeu. Fazer o que? 

 

A saída seria profissionalizar o serviço público, cortar drasticamente o número de cargos comissionados, flexibilizar o concurso público e diminuir substancialmente o tamanho do Estado. É preciso definir métricas de produtividade. É preciso mudar o sistema de jornada fixa, para o de entrega de resultados. É preciso adotar planejamento estratégico, consubstanciado em objetivos, metas e plano de ação. É preciso implantar a gestão por competências, gerindo cada servidor, inclusive os detentores de cargos em comissão, conforme com o seu perfil de habilidades. 

 

Façamos assim, e certamente teremos serviços públicos melhores, afinal, parodiando Prof. Benedito Pedro Dorileo, “é preciso cultivar a utopia, como antessala da realidade”. 

 

Ércio de Arruda Lins é Engenheiro Floresta, Bel. em Direito, Especialista em Direito Civil e Processual Civil, MBL em Direito Constitucional, Tributário e Administrativo. Professor de Direito Administrativo, Processo Administrativo e Direito Condominial. Consultor sênior condominial da Lins & Lins Consultoria.

 

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COMENTÁRIOS

Ildo Faccio - 27/03/2021

Ótimo texto, parabéns pela clareza e objetividade com que abordou este tema.

1 comentários




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