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Sexta-Feira, 05 de Março de 2021, 09h:56 | - A | + A

ARTIGO

Do medo da morte de ontem à banalização de hoje, afinal quanto vale a vida?

Vinicius Brasilino

Há quase um ano, em meados de março de 2020, Mato Grosso registrava os primeiros casos de contaminação por COVID 19, o novo coronavírus. Observando o crescimento de casos de contaminação e óbito em outros países, bem como as medidas de biossegurança para controle da doença. Uma mistura de medo, desconhecimento e incertezas tomou conta da população como um todo e dos gestores públicos, em especial, de Cuiabá e do Estado de Mato Grosso.

 

Os primeiros decretos apontavam mesmo com uma taxa ainda baixa de contaminação e ocupação dos leitos hospitalares a necessidade de um rigoroso isolamento social como forma de conter o contágio na capital. A instalação de comitês para análise técnica e situacional do avanço da doença serviu de subsídio para as decisões em âmbito local, regional e nacional. O que é bastante positivo. A ciência epidemiológica é a principal forma de analisar o desempenho da doença para que os entes federados tomassem melhores decisões para mitigar os riscos da COVID 19 na sociedade.

 

Lembro que no primeiro mês, Cuiabá ainda figurava a capital que tinha o menor índice de contágio do Brasil. Algo que foi comemorado como demonstração que as medidas de biossegurança e isolamento social cumpriram sua função. Com passar do tempo, mesmo com o entendimento que o isolamento era a melhor alternativa, setores da economia, que foi bastante afetado com o isolamento social mobilizaram-se para que houvesse a liberação do exercício de suas funções, com o comprometimento de cumprir rigorosamente as medidas de biossegurança, como por exemplo, o uso de máscaras, a disponibilização de álcool em gel, distanciamento de 1,5m e maior higienização das mãos. 

 

Mesmo assim, após a liberação do comércio, houve então um maior crescimento da incidência de casos, e com a justificativa que estava tudo sobre controle as pessoas se encontraram em um “novo normal”. Cultos religiosos, eventos de pequeno porte, campanha eleitoral, festas de final de ano, retorno ao trabalho presencial nos órgãos públicos, a falta de consciência de parte da população e a falta de discernimento do Presidente da República, do Governador Mato Grosso e do Prefeito de Cuiabá para agirem como pessoas adultas e coletivamente decidir por medidas que realmente resguarde a vida da população faz com que cheguemos à situação que se instala hoje, o caos na saúde pública e privada em Mato Grosso e Cuiabá.

 

Chegamos neste dia 05 de março de 2021 com 258.460 contaminados, 9.883 em isolamento domiciliar, 1.516 internados o que representa uma taxa de ocupação dos leitos de 96,86% e 5.941 mortes em Mato Grosso. Bem como um maior risco à saúde da população, por conta da circulação de uma nova variante da COVID 19, que segundo os pesquisadores, ainda é resistente a vacina que já, minuciosa e vagarosamente, está sendo aplicada na população, hoje já somam 88.486 que receberam a primeira dose e 37.535 que receberam a segunda dose, segundo dados da Secretaria Estadual de saúde. 

 

Portanto, o que fazer nesse momento? Toque de recolher das 21h às 5h da manhã? Liberar cultos religiosos na capacidade de 30% de fieis? Retornar as aulas presenciais na rede privada de ensino? Permitir que os trabalhadores que usam o transporte público se aglomerem nos ônibus lotados durante o horário comercial? Permitir o comércio nas atividades consideradas não essenciais? Esperar que o colapso seja então total e incontrolável? Creio que não!

 

Primeiro é preciso ter maturidade. O Prefeito de Cuiabá Emanuel Pinheiro (MDB) e o Governador do Estado Mauro Mendes (DEM) ajam como “gente grande” para resolver conjuntamente a séria questão da saúde pública. Sem a mesquinha disputa de quem se posiciona bem para as eleições 2022. O que é triste constatar e difícil de acreditar diante da ridícula briga judicial para saber quem toma medidas mais brandas em relação ao combate do caos sanitário que se instalou em Mato Grosso. Segundo, que tomem medidas para resguardar a vida e a economia, com a criação de um auxílio emergencial de R$600 para os trabalhadores de Mato Grosso, linha de crédito para as empresas, e decretar inicialmente o rigoroso isolamento social por 15 dias, a fim de evitar um colapso maior daqui a algumas semanas. Esse é o papel do Estado. Economia se recupera, vidas perdidas não. Comemora-se pelos quatro cantos que as contas estão em dias, não seria então o momento de pensar que obra pode esperar e a vida não espera? Afinal, quanto vale a vida?

 

Por fim, para não responsabilizar apenas os gestores públicos a população precisa se sensibilizar sobre a grave situação e colaborar. Deixar aquela festa planejada para depois, deixar para ir à igreja quando tiver maiores condições sanitárias até porque para ter fé não necessariamente precisa estar no templo religioso, sua divindade precisa do seu fiel vivo, não morto. Deixar para festejar, realizar comemorações e aglomerações quando tiver clima para tal. Deixar de viajar e visitar aquele parente ou amigo que estamos com saudade momentânea. Pois na verdade não podemos achar que o novo normal seja o luto permanente por familiares, amigos e conhecidos. Precisamos retomar o mínimo de humanidade ainda temos e não banalizar a morte. Afinal, todas as vidas são importantes e só daremos o valor necessário quando alguém próximo ou nós mesmos formos acometidos por essa doença. Precisamos sim de gestores que levem a sério a situação em que estamos, mas principalmente, precisamos de consciência sanitária cidadã para juntos sobreviver ao novo coronavírus e suas variantes.  Espero que daqui uns dias nós estejamos juntos para comemorar a vida e a superação desse caos que se instalou. Fiquem bem, fiquem em casa se possível e se não puder use máscara, álcool em gel 70% e mantenham a distância pela vida. 

 

Vinicius Brasilino é estudante do Bacharelado em Saúde Coletiva da UFMT e militante do PDT

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