Artigos Segunda-Feira, 03 de Junho de 2019, 08h:57 | - A | + A

POLÍTICA NACIONAL

Governo Bolsonaro assusta o mercado

Amauri Teixeira

Levado ao Palácio do Planalto por ser considerado um dos políticos menos convencionais na disputa, o presidente Jair Bolsonaro deixou nos primeiros cinco meses de mandato, pouco mais de10% do tempo que terá no poder, um saldo preliminar de desconfiança, frustração e vergonha. No período da redemocratização, nenhum outro presidente consumiu tão rapidamente o voto de confiança recebido nas urnas. Declarações estapafúrdias, recuos constantes e posicionamento dúbio em relação à democracia e à economia de mercado são os ingredientes da desidratação de sua popularidade. Some-se a isso o despreparo da equipe de governo e de seus aliados. A oposição nem precisou abrir a boca.

 

As pesquisas de opinião mais recentes registram a rápida perda de popularidade do presidente. Divulgada há 10 dias, pesquisa XP/Ipespe mostrou que a avaliação negativa superou a positiva. De acordo com o estudo, 36% da população avalia o governo como ruim ou péssimo, enquanto 34% o consideram ótimo ou bom. No intervalo de um mês, a opinião negativa sobre o governo de Jair Bolsonaro cresceu 10 pontos percentuais.

 

Esse resultado reflete a atuação de um governo que produz crises diariamente.
O presidente já causou espanto ao declarar que o nazismo era de esquerda, que o holocausto seria perdoável, ao postar em seu Twitter a imagem de dois homens numa cena de sexo explícito no Carnaval e ao afirmar que fez um acordo com o então  juiz Sérgio Moro de que o indicaria para o Supremo Tribunal Federal, ao convidá-lo para o Ministério da Justiça. Declarações assim provocam constrangimento e vergonha, mas o presidente gera ainda mais apreensão na forma como se relaciona com os demais poderes.

 

Na tentativa de se contrapor ao que chama de velha política e de escapar do presidencialismo de coalisão, Bolsonaro deixa a impressão de que flerta com o autoritarismo. Truculento no discurso e nos modos, adotou o mesmo estilo nas relações com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Na base da intimidação, busca pavimentar o caminho para que suas propostas sejam aprovadas no Legislativo e não sofram restrições na corte suprema. Para isso, faz declarações provocativas, se apoia em manifestações de seus filhos, nunca desmentidas, e aposta na crença de que sua legião de seguidores nas redes sociais representa o pensamento da população brasileira.

 

Num dos episódios da relação conflituosa que estabelece com os poderes, o presidente divulgou pelo WhatsApp, no dia 17 de maio, um texto apócrifo com duras críticas ao Congresso e ao Supremo. Com o adendo presidencial de que a leitura era obrigatória, o texto é uma veemente defesa do estilo Bolsonaro e conclui que o país “fora desses conchavos, é ingovernável”. A publicação serviu como uma senha para que grupos de apoio ao presidente organizassem, no dia 26 de maio, manifestações em defesa de seu governo, e que resultaram em mais ataques ao Congresso e ao STF.

 

Ao mesmo tempo em que deixa dúvidas sobre seu apreço à democracia, o presidente demonstra pouca convicção em adotar o receituário de sua equipe econômica. Afirma confiança no ministro da Economia, Paulo Guedes, mas demorou a se engajar na aprovação da Reforma da Previdência, interveio na Petrobras, ao determinar a suspensão de um reajuste de combustíveis, e mandou que uma propaganda de TV do Banco do Brasil fosse tirada do ar.

 

A estratégia de manter o Congresso e o STF nas cordas e os sinais dúbios em relação à economia têm produzido efeitos colaterais. Um desses reflexos negativos fica evidente na reação do mercado. Pesquisa realizada pelo Fundo de Investimentos XP revela a rápida deterioração da imagem do presidente.  De acordo com a rodada de maio do estudo, que ouviu exclusivamente agentes do mercado financeiro, 14% consideram o governo Bolsonaro ótimo ou bom; em janeiro essa era a opinião de 86% dos entrevistados com o mesmo perfil. Embora este estudo não tenha caráter científico, pois a amostra não representa exatamente o universo pesquisado, o levantamento dá uma noção da drástica mudança de humor do mercado em relação ao atual governo.

 

O efeito prático aparece nos resultados da economia. Além do recuo do PIB de 0,2% no primeiro trimestre, as projeções para este ano são seguidamente corrigidas para baixo. O Boletim Focus, do Banco Central, chegou a projetar um crescimento de 2,5%, reviu para 1,7% e, agora, projeta um crescimento para este ano de 1,23%. A consultoria Tendências, que estimava o crescimento do PIB em 1,6% para 2019, aposta num crescimento abaixo de 1%. O próprio Ministério da Economia refez suas contas e reduziu a previsão do PIB de 2% para 1,5%.  Depois de três meses consecutivos de queda, a taxa de desemprego deu um soluço positivo em maio, redução de 12,7% para 12,5%, mas será difícil produzir resultados robustos sem a recuperação consistente da economia.

 

Os ataques frequentes ao parlamento também atrasaram a votação da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. A equipe econômica precisou de um  esforço adicional para que a tramitação da proposta ganhasse ritmo. O governo ainda foi derrotado na intenção de transferir o COAF do Ministério da Economia para a pasta da Justiça e teve que apelar para que os senadores aprovassem sem alteração a Medida Provisória da reestruturação administrativa, sob o risco de ver a estrutura do governo ruir devido ao fim do prazo de votação da MP.

 

O caminho do enfrentamento deve tornar mais difícil a aprovação de iniciativas importantes e positivas, como a reforma tributária e a reforma no setor de infraestrutura. O governo incluiu 59 novos projetos no Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) criado pelo presidente Michel Temer, que prevê investimentos acima  R$ 1 trilhão até 2030. Ocorre que a maioria dessas iniciativas depende de aprovação do Congresso.

 

No campo jurídico, na semana passada, o ministro Edson Fachin, do STF, concedeu liminar a uma Ação Direta de Inconstitucionalidade e suspendeu a venda de 90% das ações da Transportadora Associada de Gás (TAG), subsidiária da Petrobras,  um negócio de R$ 8,6 bilhões. Nos próximos dias, ao julgar o mérito da questão, o pleno do Supremo vai decidir se a venda de ações de empresas públicas, sociedades de economia mista ou de suas subsidiárias pode ser feita sem aprovação do Congresso Nacional. Mais uma vez, a falta de pontes com o Congresso e a Justiça pode levar dificuldades para o governo Bolsonaro.

 

Enquanto o presidente dissemina desconfiança, a economia patina e a população sofre as consequências de um governo que ainda não se mostrou capaz de apresentar propostas concretas para seus problemas.

 

Os piores momentos de Bolsonaro em cinco meses na presidência

  

Data

Onde

O que disse

26 de fevereiro

Pronunciamento em Foz do Iguaçú


“Isso tudo não seria suficiente se não tivesse do lado de cá um homem de visão, um estadista que sabia perfeitamente que o seu país, Paraguai, só poderia prosseguir, progredir, se tivesse energia. Então aqui também a minha homenagem ao nosso General Alfredo Stroessner”.

 

6 de março

Twitter


Posta uma cena de sexo explícito entre dois homens, num bloco de carnaval. “Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro”

 

6 de março

Twitter


O presidente pergunta: “O que é golden shower?”

 

18 de março

Entrevista à Fox News


“A maioria dos imigrantes não tem boas intenções nem quer fazer o bem ao povo americano.”

 

2 de abril

Entrevista no Memorial do Holocausto, em Jerusalém


Indagado se concordava com a afirmação do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, de que o nazismo era um movimento de esquerda: “Não há dúvida, não é? Partido Socialista, como é que é? Da Alemanha. Partido Nacional Socialista da Alemanha”.

 

11 de abril

Encontro com evangélicos, no Rio de Janeiro


“Fui, mais uma vez, no Museu do Holocausto. Nós podemos perdoar, mas não podemos esquecer. É minha essa frase. Quem esquece seu passado está condenado a não ter futuro”.

 

12 de abril

Entrevista coletiva no Palácio do Planalto


Eu liguei para o presidente, sim. Eu me surpreendi com o reajuste, 5,7. Eu não vou ser intervencionista, não vou praticar políticas que fizeram no passado, mas eu quero os números da Petrobras. Tanto é que na terça-feira convoquei todos da Petrobras para esclarecer porque 5,7% de reajuste, quando a inflação projetada para este ano, está abaixo de 5, só isso mais nada. Se me convencerem, tudo bem, se não me convencerem, nós vamos dar a resposta adequada para vocês, não sou economista já falei. Já falei que não entendia de economia, quem entendia afundou o Brasil, tá certo? Os entendidos afundaram o Brasil”.

 

27 de abril

Entrevista em Brasília


Explicação do presidente para a determinação de tirar do ar um comercial do Banco do Brasil. "Quem indica e nomeia presidente do BB, não sou eu? Não preciso falar mais nada então. A linha mudou, a massa quer respeito à família, ninguém quer perseguir minoria nenhuma. E nós não queremos que dinheiro público seja usado dessa maneira. Não é a minha linha. Vocês sabem que não é minha linha".

 

12 de maio

Entrevista à rádio Bandeirantes


“A primeira vaga que tiver, eu tenho esse compromisso com o Moro e, se Deus quiser, cumpriremos esse compromisso”.

 

16 de maio

Aeroporto Internacional de Manaus


A caminho de Dallas, Bolsonaro faz referência pejorativa ao tamanho do órgão genital de um japonês. Em vídeo ele sinaliza “opa, opa, tudo pequeninho aí?”

 

17 de maio

No próprio WhatsApp


Presidente recomenda a leitura de um texto apócrifo que afirma que fora dos conchavos o país é ingovernável. “Um texto no mínimo interessante, para quem se preocupa em antecipar aos fatos sua leitura é obrigatória”.

 

21 de maio

Twitter


“Quanto aos atos do dia 26, vejo como uma manifestação espontânea da população, que de forma inédita vem sendo a voz principal para as decisões políticas que o Brasil deve tomar”.

 

26 de maio

Café da manhã com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, no Palácio do Planalto


“Com a caneta eu tenho mais poder que você, apesar de você na verdade fazer as leis, eu tenho o poder de fazer decreto”

31 de maio

Convenção Nacional das Assembleias de Deus, em Goiânia.


"Não me venha a imprensa dizer que eu quero misturar a Justiça com a religião. Todos nós temos uma religião ou não temos. Respeitamos e tem que respeitar. Será que não está na hora de termos um ministro do Supremo Tribunal Federal evangélico?"

 

31 de maio

Convenção Nacional das Assembleias de Deus, em Goiânia.


“O Supremo Tribunal Federal agora está discutindo se homofobia pode ser tipificado como racismo. Desculpe aqui o Supremo Tribunal Federal, que eu respeito e jamais atacaria outro poder, mas, pelo que me parece, estão legislando. E eu pergunto aos senhores: o Estado é laico, mas eu sou cristão”.

 

 

* Amauri Texeira é jornalista e consultor de marketing político. 

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