Artigos Terça-Feira, 08 de Setembro de 2020, 11h:56 | - A | + A

COLUNA LEPINSK

Pitu (e a crueza do mundo dos indesejáveis)

Daniela Lepinsk Romio

 

Pitu tinha três anos quando sofreu o primeiro estupro. Violada pelas mãos do companheiro da mãe, a quem fora involuntariamente confiada. O choro não foi ouvido por ninguém. Assim que se viu livre do homem de mãos ásperas e dedos rudes, correu a se aninhar no colchão imundo, enroscada na mãe inconsciente, entorpecida pelo álcool e drogas. Ali ficou até que os soluços passassem, as lágrimas secassem e o sono por fim lhe desse alento por algumas horas. 

 

Sobreviveu à infância por muito pouco. Faltou alimento, medicamento, higiene, carinho, conforto, colo. Faltaram roupas, sapatos, cadernos, escola. 

 

Aos 12 anos, mal se lembrava da existência longínqua da mãe e já sabia como se esquivar dos abusos. O destino a colocou no caminho de Isidora, cafetina piedosa a seu modo, que lhe ensinou os poderes femininos e o manuseio preciso de facas. Também ensinou a manter os dentes limpos, livrou a menina dos piolhos e garantiu que aprendesse a ler, escrever e, principalmente, fazer contas. 

 

Quando completou 16 anos, era uma das prostitutas mais requisitadas do porto. Bonita, profissional e violenta, uma combinação que acabou lhe garantindo a atração de um companheiro fixo. Dono de fazenda, com mulher e filhos, Tomé Santão tinha na vida paralela o conforto que não sentia em casa, como quase todo homem que tem por hábito fazer escolhas ruins.

 

Antes de morrer — numa emboscada armada por Riolando, amante da mulher, fazendeiro vizinho que estava de olho na filha e nas terras de Santão — ele já tinha garantido o futuro de Pitu, deixando escriturado em nome dela o sobrado onde funcionava o prostíbulo, além do crédito para reforma com um empreiteiro e uma caixinha com 21 pepitas de ouro, uma por ano da jovem amada.

 

Assumindo o comando da casa após a morte de Isidora, Pitu mandou pintar seu nome bem grande na fachada. O andar térreo abrigava o bar, cobiçado por todo tipo de gente que ronda o porto, frequentado apenas pela nata dos indesejáveis. Em cima, os quartos com janelões e cortinas esvoaçantes recebiam as moças e seus clientes.

 

Impedida de ter filhos pelos abusos e doenças não curadas que a corroeram por dentro na infância, Pitu aceitava a prostituição como profissão natural, desde que nos limites da decência – o que, para ela, queria dizer duas coisas: não oferecia menores de 15 anos e não admitia que ninguém fosse violento com as moças que tutelava.

 

Seus limites foram testados poucas vezes. Uma das mais emblemáticas por um forasteiro desavisado que gostava de exibir a arma na cintura e se gabar de ser mais homem que qualquer outro homem. Aproveitou uma noite de ausência de Pitu e moeu numa sessão de espancamento uma das meninas, que só escapou com vida porque saltou pela janela e caiu na calçada em frente do bar, com hematomas por todo o corpo, marcas de dentes, um olho roxo, o pulso esquerdo fraturado e o tornozelo direito lesionado. Foi socorrida pelas colegas e por outros clientes. 

 

Dois dias depois, o corpo do forasteiro foi encontrado por um andarilho a algumas quadras de distância, à beira do rio. Braços amarrados pra trás, o tórax retalhado a ponta de faca, asfixiado pelos próprios genitais, arrancados a dentadas e enfiados goela adentro. 

 

A polícia sequer se deu ao trabalho de investigar, dando o caso por vingança de família. E Pitu seguiu cuidando da própria vida e de suas meninas, até que anos depois a morte a levasse, serena, e sua casa fosse abandonada, tivesse as portas lacradas com tijolos e só restassem tiras esvoaçantes das cortinas dançando nas noites quentes, o último resquício da memória daquelas janelas que tanto sabiam do gozo e do amargo da vida.

 

Daniela Lepinsk Romio é profissional de Comunicação. Escreve sobre temas aleatórios, incluindo Comunicação, Comportamento, Cultura, Política e o que mais se sentir à vontade para opinar sobre. Hoje o texto é de ficção, porque a realidade está muito pouco digna de credibilidade, com a existência de absurdos como movimento anti-vacina e a nossa desumanização, que permite praias e bares lotados enquanto as escolas permanecem fechadas e celebramos quase 130 mil mortos com uma naturalidade quase bestial.

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