Artigos Sexta-Feira, 03 de Abril de 2020, 10h:26 | - A | + A

CRISE

Rolé de um presidente isolado

Roberto Boaventura da Silva Sá

Em que pese o tom mais ponderado na fala de Bolsonaro, na última terça-feira (31), o que vimos no domingo (29) foi um presidente – isolado até por aliados – fazendo um “tour” por locais de Brasília e cidades satélites: audácia ou irresponsabilidade?

 

A dúvida tem sentido por diversos motivos. Deles, destaco que, no dia anterior (28), o ministro da Saúde, Luiz H. Mandetta, pedira à população que respeitasse o isolamento, dada a periculosidade do COVID-19; que, quando saísse, que fosse por motivos indispensáveis, e com os cuidados devidos. Pediu ainda que acreditássemos na ciência; subjetivamente, que duvidássemos de seu chefe.

 

Pois bem. Logo após, medindo forças com Mandetta, Bolsonaro foi às ruas: caminhou e conversou com trabalhadores, muitos informais, dos quais, inocentemente, vieram pedidos semelhantes aos dos pequenos e médios empresários, promotores de recentes carreatas realizadas alhures.

 

Detalhe: nas carreatas, os “ativistas engravatados”, que pediam aos trabalhadores o retorno às empresas, permaneceram dentro de seus carros, muitos deles blindados, inclusive contra a pobreza e a miséria dos empregados, cinicamente tratados como “colaboradores”. 

 

Sobre esse panorama, numa conclusão da Folhapress (29/03), depois de uma tentativa de produzir discursos menos divisionistas, aquela “postura (desrespeitosa e isolada) de Bolsonaro diante do COVID-19 foi gerada pelo receio de perder apoio do setor empresarial e de trabalhadores autônomos, pilares de sustentação de seu mandato”.

 

O receio apontado teria sido inflado por seus filhos. “Para convencer o presidente, foram mostradas a ele previsões do desemprego nos EUA diante da pandemia”.

 

Isso posto, começo chamando atenção para o fato de Bolsonaro ter dito que fez o teste para COVID-19, e que o resultado fora negativo.

 

Ótimo, mas alguém viu isso?

 

Por ser Bolsonaro o presidente, ele não poderia ter apresentado o resultado à nação?

 

Garantido o meu direito de duvidar, se não for verdade sua, no domingo passado, o presidente pode ter distribuído mais vírus do que afagos àquelas pessoas.

 

A despeito de qualquer intensão, o “tour”, em si, afrontou o ministro Mandetta, que, na condição de médico, poderia ser mais enfático contra as “receitas” dadas pelo presidente Bolsonaro que, mesmo nesta condição, não tem autoridade para desrespeitar profissões, tampouco a Medicina. 

 

Mas a propósito, até quando as próprias elites engolirão um presidente tão limitado? 

 

Pergunto isso porque a elite empresarial já entendeu que articulações da equipe econômica do governo, liderada por Guedes, são para lhes favorecer, antes de tudo e de todos. As medidas que já estão sendo aprovadas pelo Congresso comprovam isso.

 

De qualquer forma, aos incrédulos, serei didático: peço que prestem atenção em anúncios recentes de transnacionais e de megaempresas nacionais. Dentre os que já vi, cito o comercial em que OI, VIVO, CLARO e TIM se uniram em torno do discurso cada vez mais internacionalista, aliás enunciado até por Trump: ‘Stay at home and save lives’.

 

Bondade empresarial?

 

Não. As empresas só passaram a expor esse comportamento humanista após anúncios das medidas governamentais que, antes de outras vidas quaisquer, salvarão – com incalculáveis recursos públicos – as vidas das próprias empresas, mantendo intactos seus exorbitantes lucros; e isso em diversos países!

 

Sendo assim, se Bolsonaro entendeu essa jogada, precisamos reflexionar mais sobre os porquês daquele seu rolezinho no meio do proletariado.

 

Roberto Boaventura da Silva Sá - Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP

rbventur26@yahoo.com.br

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