Artigos Terça-Feira, 04 de Agosto de 2020, 07h:30 | - A | + A

COMUNICAÇÃO CORPORATIVA

Sem milagres na Comunicação

Daniela Lepinsk Romio

Tenho um acordo com Deus: ele não faz comunicação e eu não faço milagres. A frase é uma piada comum entre profissionais de Comunicação quando recebem do cliente uma demanda impossível – campanha sem verba, conseguir entrevista na TV porque recebeu uma ISO, produto equivocado, grandes produções 'pra ontem' e outras pérolas do mundo da Comunicação Corporativa. 

 

Ouça também o podcast: 

 

Abre parênteses: antes que nos acusem de pretensiosos ou desrespeitosos, já esclareço que não se trata de comparação com o Deus de ninguém – Ele nos livre de tal blasfêmia. Mas vamos combinar que comunicação não é exatamente o forte d'Ele. Avalia comigo: quatro evangelhos diferentes e a gente ainda não tem certeza se o Novo Testamento anulou o Antigo ou quais partes ainda estão valendo. Por exemplo: o trecho dos 10 mandamentos segue vigente, mas e o Levítico? Se ainda for pecado misturar dois tipos de tecido no mesmo traje, não vai sobrar lugar no inferno para a humanidade. 

 

Mas tudo bem no caso divino, pois as nuances e divergências nas traduções e interpretações podem até ser propositais – afinal, o que conta para Ele é a fé. E a fé não requer documentos registrados em cartório nem traduções juramentadas – ao contrário, os mistérios são um poderoso estímulo aos que creem. Ele pode escrever certo por linhas tortas e continua sendo case de sucesso. Mas nós não temos esse talento – precisamos de linhas retas, letra boa, frases curtas e versão em vídeo. Fecha parênteses. 

 

Voltando aos milagres mundanos que nos são demandados no cotidiano: muitos de nós acabam agindo no automático e tentando resolver, oferecendo uma solução improvisada e ineficiente, apenas para evitar o desgaste de dizer não ao cliente e correr o risco de vê-lo encontrar outro profissional que aceite o 'desafio' – e apresente outra proposta, que muito provavelmente será também improvisada e ineficiente. 

 

Por receio de ofender, passar por resistentes ou dar a impressão de incompetência, acabamos deixando de cumprir com o papel mais importante de um comunicador: participar de todas as etapas do processo, compreender os objetivos, desenvolver a estratégia, apresentar as ferramentas mais adequadas, orientar e aconselhar. 

 

O nosso cliente não é um profissional de Comunicação. Ele não sabe quanto tempo leva o processo de criação de uma campanha ou a edição de um vídeo. Sem media training, ele não sabe porque a ISO que conquistou e é tão importante internamente gera zero interesse na imprensa – e não vai render entrevista na TV. Ele precisa de apoio para compreender que não há comunicação que salve um produto ruim. Ele precisa saber também que, sem uma estratégia robusta de vendas, a melhor campanha publicitária vai dar água. 

 

Têm-se discutido muito as projeções para o mundo pós-pandemia, com novos formatos de interação e relações sociais e comerciais. A Comunicação será fortemente impactada por essas mudanças – e, ao mesmo tempo, terá papel ainda mais essencial para o atingimento de resultados. Certamente será um período muito rico em inovação e criatividade, com níveis de exigência altos, muitas tentativas e erros, com novidades sendo rapidamente incorporadas aos processos tradicionais.  

 

Cabe aos profissionais de comunicação, neste momento mais do que nunca, o papel de dar as explicações técnicas, dizer não, voltar dois passos, reavaliar. É o que eu chamo de adotar a postura de consultor, que atua desde o diagnóstico dos problemas até a construção das soluções, de forma estratégica e integrada às demais áreas do negócio. É claro que isso requer estudo e leitura constantes por parte dos profissionais – quem não estiver atento aos movimentos de mudança será engolido.  

 

Comunicador é consultor, não pode ser tirador de pedido. E essa é uma experiência riquíssima, tanto para quem atende quanto para o cliente, que alcançará resultados mais consistentes. Ele vai gostar do jogo aberto e da lealdade. No fim, pode até achar que foi milagre – mas infelizmente não trabalhamos com milagres, senhor. Apenas com Comunicação de verdade, o que já é complexo o suficiente para meros mortais.

 

Daniela Lepinsk Romio é profissional de Comunicação. Escreve sobre temas aleatórios, incluindo Comunicação, Comportamento, Cultura, Política e o que mais se sentir à vontade para opinar sobre.

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COMENTÁRIOS

José Catarino Torres - 04/08/2020

Muito bom, parabéns.

1 comentários

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