Artigos Terça-Feira, 01 de Setembro de 2020, 08h:00 | - A | + A

COLUNA LEPINSK

Separação em tempos de pandemia

Daniela Lepinsk Romio

Mais um casal de amigos se separou durante a pandemia - soube neste fim de semana. Contando comigo, já são cinco. E eu digo 'durante' porque não acredito que seja 'devido' à pandemia. Se um casamento não sobrevive a poucos meses de isolamento, com certeza os problemas já estavam lá. O máximo que acontece é o isolamento dar uma acelerada na tendência, assim como vem ocorrendo em diversos outros aspectos da vida.

 

E por que estou falando sobre este tema? Bem, porque é relevante. Porque amigos estão sofrendo, estão confusos e tendem a me procurar para conversar, afinal eu já passei por isso três vezes, em situações bem distintas umas das outras. 

 

Casais que se separam nem sempre sabem como tocar a vida de ex-casal, especialmente quando existem vínculos mais duradouros – que atendem pelo nome de filhos. E eu vou compartilhar aqui sete pontos do meu aprendizado que podem funcionar para você ou alguém que você conheça e esteja passando por uma separação. 

 

1- Deixar ir é prova de consideração e respeito 

 

Alguém que um dia foi tão importante para você a ponto de merecer o seu amor precisa fazer jus a um mínimo de lealdade: se não há mais amor e o relacionamento se esvaziou, qual o sentido de manter a pessoa presa a você por mais tempo? Os dois merecem a oportunidade de se reconstruir e buscar plenitude em suas vidas, seja sozinhos, seja com novos relacionamentos. E, se é isso que você quer – ou que seu parceiro quer –, quanto mais demorar, maior é a perda de tempo. É uma questão até de generosidade, que é bem mais produtiva do que ficar esperando: quando a gente liberta quem ama ou já amou um dia, com gratidão, a gente também se liberta. 

 

Se você já sabe que acabou, não adianta ficar esperando eternamente o momento certo. Sempre vai ter um aniversário próximo, ou alguém doente, uma viagem marcada, o Natal chegando, a pandemia. Também não adianta esperar pela concordância do outro, assim como não há motivo para se ofender porque é você que não concorda com a separação. Fato da vida: para iniciar e manter uma relação, a decisão é conjunta. Mas, para terminar, basta que um dos dois não queira mais. Não há nada de errado com isso. E acredite: é bem menos traumático terminar antes que um dos dois comece a se envolver com outras pessoas.

 

2- Não existe ex-pai nem ex-mãe

 

Quando há filhos envolvidos, a manutenção do respeito é ainda mais essencial. Lembre-se que existe um vínculo permanente com a pessoa. Então, na medida do possível, é importante que a relação seja tranquila, colaborativa e sem hostilidades diante dos filhos. Não vai ser fácil no início, mas com o tempo isso pode ser conquistado. Aliás, esse tema específico vale um artigo exclusivo.

 

Lembre-se que uma família ainda é uma família, ainda que tenha uma configuração diferente da tradicional. Quando se vê dessa forma, fica muito mais fácil entender por que não se deve falar mal do/da ex na frente dos filhos. Eles têm o direito de achar que o pai e a mãe são legais e que a separação não teve nada a ver com eles. Assim, podem manter o amor e a confiança tanto pelo pai quanto pela mãe, crescendo em ambientes mais saudáveis e com a autoestima preservada. Muito mais até do que com os pais casados, porém infelizes, desconectados e em conflito. Usar os filhos como arma um contra o outro é cruel e provoca danos a todos, incluindo a quem usa. 

 

3- Esqueça o culpado

 

Procurar o culpado pelo fim não leva a nada. A maioria arrasadora dos relacionamentos acaba simplesmente porque o ciclo fechou. A responsabilidade é dos dois. Não estou falando aqui de casos de abuso e violência, porque aí já é esfera criminal. Estou falando da conexão que se deixa perder, do olhar que não comunica mais, do beijo automático, da transa sem graça e por obrigação, do silêncio conjunto que passa a ser desconfortável. Se chegou a esse ponto, em geral não é mais amor: é apego. E o pior é que não é sequer apego à pessoa, mas sim ao fato de estar casado.

 

Quando o assunto do casal se restringe a logística – como ir, que horas sair, jantar o quê, revisão do carro, lista de compras, chamar o encanador – as portas do fim já estão abertas. E quem decide sair primeiro não pode crucificado por isso – nem deve ficar culpando quem ainda não se convenceu a sair. 

 

4- Mesquinharia é arma baixa

 

Terminar um relacionamento discutindo bens até o último centavo é deprimente, mesquinho e não traz felicidade a ninguém. No geral, todo mundo sabe muito bem o que é justo, mas na discussão de bens as pessoas tendem a se transformar, muitas vezes por influência de familiares ou até mesmo advogados. Péssimo caminho. Ficar regateando pensão de filho é tão feio quanto querer o que não lhe pertence só para 'depenar' o outro. 

 

Acredite: se for possível não judicializar o processo, prefira sempre a via do acordo. Busque apoio de conciliadores. Sabia que é possível, por exemplo, fazer o divórcio e deixar a discussão dos bens para depois? Pode ser útil, para evitar decisões impensadas. Só tente evitar intensificar o conflito... avalie bem as consequências antes de entrar em uma briga que pode te machucar ainda mais. 

 

5- Você vai superar

 

Vai doer, vai ter luto, vai ser difícil. Mas ninguém nasce casado – cada ser humano tem sua autonomia. É possível superar, e as pessoas se recuperam, desde que foquem no futuro. E não tenham medo de procurar ajuda: terapia é fundamental. Familiares de confiança e amigos próximos também podem ser uma boa rede de apoio. Ah, e pare de falar que o casamento 'não deu certo'. Deu sim, durante um determinado tempo, e depois acabou.

 

Mas não é de um dia pra outro que você vai ficar bem, então respeite seu ritmo! Não precisa tentar provar a todo mundo que está bem, fazer conta no Tinder, surtar nos stories para provar que está bem. Pode ficar na sua durante o tempo que precisar. Não há nenhum benefício em tentar apressar ou disfarçar seu processo de cura. 

 

6- A melhor companhia 

 

Aprender a ficar à vontade e completo sem outra pessoa por perto é o primeiro passo para a felicidade sustentável. E não é egoísmo se colocar no centro da própria vida: você precisa ser sua prioridade. Fugir das recaídas a todo custo! Fazer terapia, buscar identificar os padrões dos seus relacionamentos, aprofundar seu autoconhecimento. Cuidar da saúde, da aparência, do seu espaço. Fazer o que gosta. Para você, por você. Não para agradar outra pessoa. Só alguém que gosta de si tem condições de decidir se – e quando – quer se se abrir para novas relações.

 

7- Depois do fim

 

Vai bater a bad. Em ondas. Dias melhores, dias piores. Vai ter saudade do tempo em que as coisas iam bem. Há casais que reatam e funciona, porque começam de novo em novos termos. Mas em grande parte dos casos o 'voltar' é mais um adiamento do caos. Sofrimento prolongado, tipo pagar o mínimo do cartão meses seguidos. 

 

O distanciamento da pandemia pode sim ser uma dificuldade a mais neste período, dependendo do perfil de cada um, porque dificulta a socialização. Mas não é motivo para brincar com os sentimentos da pessoa, tá? Nada de fazer contato só porque viu uma foto em que ela parece feliz. Aliás, bloquear em redes sociais é bom para a saúde mental dos dois! 

 

Separação machuca, é difícil. Mas é o fim de um relacionamento, não é o fim do mundo. Nem da sua vida. E todo mundo sabe o que vem depois do fim: outro começo! De um novo tempo. De novas histórias. De mais plenitude, autoconhecimento e felicidade, incluindo ou não novas relações. A vida é muito curta pra ficar em compasso de espera.

 

Daniela Lepinsk Romio é profissional de Comunicação. Escreve sobre temas aleatórios, incluindo Comunicação, Comportamento, Cultura, Política e o que mais se sentir à vontade para opinar sobre.   

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COMENTÁRIOS

Jussara Carvalho - 01/09/2020

Me senti tomando chá em companhia da Daniela L. Romio e a ouvindo nessa conversa gostosa, com informações e dicas preciosas. Um assunto delicado abordado de forma leve e com muito cuidado e respeito. PARABÉNS!!!

1 comentários

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