Esportes Sexta-Feira, 16 de Agosto de 2019, 16h:41 | - A | + A

INCÊNDIO NO CT DO FLAMENGO

“O Flamengo gasta 200 milhões para contratar jogadores. E eu vou chorar a vida inteira pelo meu filho”

Seis meses após incêndio no Ninho do Urubu, familiares dos garotos mortos se indignam com a diretoria rubro-negra.

El País - Brasil

El País - Brasil

CT Flamengo

Cristiano Esmério exibe foto do filho e a camisa que ele usava na base rubro-negra

No último domingo, Cristiano Esmério passou seu primeiro Dia dos Pais sem a companhia do filho Christian, que, aos 15 anos, foi um dos dez garotos mortos pelo incêndio no centro de treinamento do Flamengo. “Nós éramos muito apegados. Queria que estivesse aqui comigo. Não tem dinheiro que pague a falta que ele me faz”, afirma o organizador de eventos, que vive com a mulher e os filhos gêmeos, de 3 anos, em uma casa de quatro cômodos no subúrbio do Rio de Janeiro. Seis meses depois da tragédia, o acordo de indenização com o clube rubro-negro ainda está longe de ser fechado e pode se encaminhar para uma extensa batalha nos tribunais. “Os dirigentes decidiram arrastar nosso sofrimento. O Flamengo gasta 200 milhões para contratar jogadores. E eu vou chorar a vida inteira pelo meu filho.”

 

Esmério não está sozinho em sua indignação. Outras famílias também dizem reviver a perda traumática dos filhos diante das escolhas tomadas por dirigentes do Flamengo, que recusaram a proposta extrajudicial mediada pela Defensoria do Estado e pelo Ministério Público do Rio. Pelo trato sugerido em uma câmara de conciliação, o clube pagaria 2 milhões de reais a cada família e uma pensão de 10.000 reais mensais até 45 anos completados pelas vítimas caso estivessem vivas.

 

As indenizações somariam um montante de 20 milhões de reais, equivalente à folha salarial do clube para bancar mensalmente elenco, comissão técnica e funcionários. A recusa, argumentam os defensores e promotores, contrasta com as cifras do time mais rico do país. Somente este ano, o Flamengo empenhou quase 200 milhões de reais em contratações de reforços. Os 55 milhões comprometidos para trazer da Europa o meia Gerson e o zagueiro Pablo Marí, anunciados cinco meses depois do incêndio no Ninho do Urubu, quitariam praticamente todo o acordo de reparação às famílias estipulado por órgãos públicos.

 

Segundo a força-tarefa formada por Defensoria e MP, que segue monitorando os desdobramentos da tragédia, a contraproposta feita pelo Flamengo ficou “aquém daquilo que as instituições entendem como minimamente razoável diante da enorme perda das famílias e demais envolvidos”. Já dirigentes rubro-negros avaliam que os valores propostos estariam “muito acima” da jurisprudência em casos semelhantes com vítimas fatais e preferiram abrir negociações individuais a partir de um teto comum. Até o momento, o clube fechou acordo com as famílias de todos os 16 jogadores sobreviventes, que foram reincorporados às categorias de base, e de três garotos que morreram no incêndio — em uma delas, apenas o pai, que é separado da mãe, aceitou a proposta.

 

“Por se tratarem, em sua maioria, de famílias de baixo poder aquisitivo, algumas acabaram concordando com os valores impostos pela diretoria do Flamengo para receber logo a indenização e por temerem que daqui cinco ou dez anos o clube não tenha a mesma saúde financeira para honrar acordos judiciais”, diz a coordenadora da Defensoria Pública do Rio, Cintia Guedes. 

 

Cristiano Esmério remói seu desgosto a cada anúncio de nova contratação do Flamengo. “O recado que os dirigentes passam é que, para o clube, a vida dos nossos filhos não vale nada.” Christian era goleiro. Integrava a base flamenguista desde os 12 anos. Reconhecido como pegador de pênaltis, havia defendido uma cobrança na conquista do título do Campeonato Carioca sub-15 e figurava em convocações da seleção brasileira da categoria. Apesar da projeção do filho, que estava prestes a assinar seu primeiro contrato profissional com o Flamengo, o pai rechaça a hipótese de fazer leilão por indenizações, explicando que reivindica o mesmo valor definido para todas as famílias por Defensoria e MP, que não teve participação de advogados nem distinção por estágio de carreira das vítimas. “O Christian era uma criança como as outras que morreram no Ninho. Sua vida vale tanto quanto a delas”, diz Esmério. “Talvez ele nem se tornasse jogador. Poderia ser gari, médico ou pintor. E o que isso importa agora, que eu não tenho mais meu filho?”.

 

Histórico

 

Um curto circuito no ar condicionado teria provocado as chamas que se espalharam rapidamente pela estrutura inflamável das divisórias entre contêineres que compunham o alojamento da base do Flamengo, aponta o laudo técnico da Polícia Civil sobre a tragédia. O centro de treinamento não tinha alvará de funcionamento nem certificado do Corpo de Bombeiros. A estrutura que pegou fogo não constava no projeto enviado à Prefeitura para o licenciamento de edificações. Além disso, o clube já havia sido multado 31 vezes pelo poder municipal por manter o CT aberto de forma irregular. A primeira versão do inquérito policial determinava o indiciamento de oito pessoas por homicídio doloso (quando se assume o risco de matar), incluindo dois engenheiros do Flamengo e o ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello.

 

Por orientação do Ministério Público, a polícia realiza novas diligências e tem até o fim deste mês para concluir o inquérito. Famílias que não chegaram a acordo com o clube esperam o documento para ingressar com processos na Justiça. Uma ação coletiva não está descartada. 

 

Em 2015, o clube rubro-negro foi alvo de uma ação civil pública do MP que denunciava as “precárias condições oferecidas aos atletas da base”, que pedia a interdição do centro de treinamento. Ao longo do processo, o Flamengo resistia em assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho. As investigações começaram em 2012, depois que um goleiro de 14 anos caiu na vala de uma obra inacabada do CT e precisou levar 33 pontos na perna esquerda.

 

Na época, fiscais descobriram irregularidades como jogadores alojados sem autorização dos pais e até um adolescente diagnosticado com anemia falciforme que ficou quase dois anos sem visitar a família. Também constataram que a casa onde garotos dormiam antes de serem abrigados na estrutura de contêineres estava com extintores de incêndio vencidos. Em 11 laudos apresentados pelo clube às autoridades, nenhum deles especificava a existência do alojamento que pegou fogo. “Aquele espaço era invisível aos órgãos públicos”, afirma a promotora de Justiça, Ana Cristina Huth Macedo. “O clube sempre fez de tudo para dificultar os trabalhos de fiscalização.”

 

Por ordem judicial, o CT acabou impedido de receber crianças e adolescentes após o incêndio. O Ministério Público considerou que “a omissão do clube, aliada ao grave ocorrido, demonstra um desrespeito reiterado às determinações de interdição das referidas instalações.” O Flamengo só conseguiu reverter a decisão em maio, quando, finalmente, firmou o TAC com as autoridades, disponibilizando uma nova estrutura aos jogadores da base. Anualmente, o clube investe cerca de 20 milhões de reais na formação de atletas. Por isso, dirigentes entendem que o incêndio se tratou de uma “fatalidade”. “O que aconteceu foi uma tragédia, mas com responsáveis”, afirma Esmério. “Mesmo com todo dinheiro, o Flamengo não foi capaz de cuidar do meu filho.”

 

A diretoria rubro-negra informa que ofereceu apoio psicológico a todas as famílias, assim como disponibilizou exames médicos e odontológicos dos atletas para auxiliar os trabalhos de identificação das vítimas. Ainda reforça que mantém o pagamento da ajuda de custo prometida aos genitores, no valor de 5.000 reais por mês, enquanto não houver definição das indenizações. Sobre a recusa ao acordo proposto por Defensoria e MP, o clube manifesta que resolveu discutir individualmente para atender às necessidades de cada família e “segue aberto para novas negociações”.

VOLTAR IMPRIMIR

COMENTÁRIOS

Copyright 2018 PNB ONLINE - Todos os direitos reservados. Logo Trinix Internet