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ENTREVISTA

A escalada do uso dos agrotóxicos no Brasil

Pesquisador Wanderlei Pignati, referência nacional no tema, sinaliza também para uso de veneno em Mato Grosso, que utiliza cerca de 80 litros de agrotóxicos por habitante.

Safira Campos

DA REDAÇÃO

Reprodução

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O Governo Federal, apenas nos seis primeiros meses deste ano, já liberou 197 novos registros de agrotóxicos no Brasil. Deste montante, cerca de 26% são proibidos em outros lugares do mundo, como nos países da União Europeia. O Ministério da Agricultura afirma que o objetivo é aumentar o poder de mercado brasileiro. Mas esta escalada no uso de veneno nas lavouras e pastos do país não significa exatamente isso. É o que alerta o médico e professor Wanderlei Pignati, pesquisador do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador (NEAST) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Em de suas pesquisas mais recentes, o especialista encontrou agrotóxicos em leite humano de mães residentes em Lucas do Rio Verde, uma das cidades símbolo do agronegócio em Mato Grosso. Segundo Pignati, não por acaso, a rota do uso do agrotóxico no estado é a mesma rota de registro de casos intoxicação aguda, câncer e malformação congênita na população.   

O que representa essa escalada do agrotóxico no Brasil?

O Brasil hoje é um dos maiores produtores de soja, milho, algodão, de carne bovina, de madeira e em tudo isso se usa muito agrotóxico. Se essa escalada acompanhar a produtividade que o Brasil propõe, vai significar uma utilização absurda de agrotóxico. Já somos campeões. No ano de 2018, utilizamos cerca de 1,2 bilhão de litros de agrotóxicos. O Brasil tende a causar uma exposição maior para a população. Em 2010, nós tínhamos 5 litros de exposição por habitante e atualmente já estamos em 7 litros por habitante. Isso tudo prejudica também o meio ambiente, porque uma parte desse veneno vai para a água nos rios e nos lençóis freáticos e outra parte evapora e vai para o ar.

"No país, a cada mil nascidos vivos, quatro nascem com malformações. Em Mato Grosso, a média de 18 indivíduos. Há cidades, que estão na rota da produção agrícola, que têm a média de 40 crianças"

De acordo com suas pesquisas, quais as mais graves implicações do uso dos agrotóxicos?   

Para a população, intoxicação aguda; câncer, principalmente infantojuvenil, em pessoas de até 18 anos de idade; malformação congênita; doenças neurológicas, como a Doença de Parkinson, que várias pesquisas científicas no mundo já apontaram correlação. Nós aqui em Mato Grosso fizemos um estudo, que saiu na revista científica Saúde Coletiva de 2017, que mostrou que nas quatro regiões mais produtoras do estado, que são as regiões de Rondonópolis, Sinop, Tangará e Canarana, são os locais onde mais tem incidência de intoxicação aguda, câncer e malformações em Mato Grosso. Há outros males também como doença renal, por exemplo. Uma boa parte das pessoas que estão fazendo hemodiálise na região tiveram contato direto com agrotóxicos, ou por terem trabalhado ou por terem morado perto de lavouras, ou beberam água contaminada.    

Como Mato Grosso figura no ranking brasileiro do uso dos agrotóxicos?

O nosso estado é um péssimo consumidor de agrotóxicos, um dos piores do Brasil. Na safra passada, o país consumiu 1,2 bilhão de litros de agrotóxicos e só Mato Grosso consumiu mais 20% disso, mais ou menos 250 milhões. Tendo em vista que nossa população é de aproximadamente 3 milhões de habitantes, a exposição da população do estado é de 80 litros por habitante. Mais de dez vezes mais que a média nacional. Com a liberação desses novos agrotóxicos, estimamos que no ano que vem mais 20 milhões de litros sejam pulverizados nas lavouras. Já somos líderes de  malformação congênita no Brasil. No país, a cada mil nascidos vivos, quatro nascem com malformações. Em Mato Grosso, a média de 18 indivíduos. Há cidades, que estão na rota da produção agrícola, que têm a média de 40 crianças. No estado, a escalada é tremenda.

Agência Brasil

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O que há de mais grave sendo feito no estado?

A exposição dos trabalhadores. O Sistema Nacional de Informação de Agravos (Sinan), mostra que nos últimos dez anos  quadruplicou o número de intoxicação aguda pelo uso de agrotóxicos em geral. Os trabalhadores que lidam com agrotóxicos em animais, os veterinários, por exemplo, tiveram três vezes mais casos de intoxicação neste mesmo período. Os agentes que trabalham no combate à dengue, duplicaram os casos. E outro caso bem grave é dos trabalhadores domésticos, no uso de venenos para matar pernilongo, por exemplo, que triplicou também os casos de intoxicação.  

Como o senhor avalia as mais recentes deliberações do Governo Federal sobre o tema?  (Cerca de 160 agrotóxicos já foram liberados apenas neste ano)

Eu considero uma maneira bem antidemocrática de governar. Mostra um desrespeito à população e à legislação. Pois a lei do agrotóxico diz que para que haja a liberação é necessário que haja avaliação do Ministério da Saúde, Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Agricultura. Estamos falando de uma lei vigente, que ainda não foi derrubada. O governo tem feito a liberação apenas com o aval do Ministério da Agricultura, que só avalia eficácia agrícola do veneno. O prejuízo causado à população é ignorado, bem como os males aos animais. Muitos agrotóxicos matam peixes. As abelhas, a exemplo, estão sofrendo uma grande mortandade no mundo todo, o que prejudica a polinização. Resumidamente, é de uma irresponsabilidade. O Ministério Público já está recorrendo disso, mas não conseguiu ainda parar a liberação.     

O Ministério da Agricultura afirma que a permissão de novos agrotóxicos visa o aumento na competição de mercado. Tem como aliar desenvolvimento econômico, saúde da população e uso de agrotóxicos?

Não. E o Brasil vai passar a perder mercado por esse uso irrestrito. Muitos dos agrotóxicos liberados no Brasil são proibidos na União Européia. Daqui a pouco nós simplesmente não conseguiremos exportar para a União Europeia. Vai conseguir exportar só para os países em que a legislação é menos rígida como países da África, da Ásia e Oriente Médio. Então, eu considero a afirmação do Ministério equivocada. Além disso, o agrotóxico esteriliza o solo, precisa usar mais veneno com o tempo, mais fertilizante químico, junta com as sementes transgênicas e o resultado não é bom, nem para população, nem para a economia. É um ciclo de destruição não só ambiental, como humana.    

Como fazer frente a uma bancada ruralista tão forte quanto a brasileira? 

Aqui em Mato Grosso a pulverização aérea tem que respeitar o limite de 500 metros de onde há córrego, nascente, rio, residência e áreas de preservação ambiental. Inclusive, uma boa parte da bancada ruralista, a mesma que legisla no nosso país, é dona de fazendas. Eles precisam ter consciência que de que agrotóxicos que são permitidos aqui e proibidos na União Européia causam sérias implicações, por exemplo. Mas infelizmente o compromisso deles não é com a população.

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