Geral Domingo, 18 de Agosto de 2019, 06h:00 | - A | + A

ENTREVISTA ESPECIAL

“O povo brasileiro é excludente e intolerante, mas gosta de crer o contrário”

Antropóloga de prestígio internacional vê com temor onda obscurantista no Brasil.

Safira Campos

(Foto: Junior Silgueiro)

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Lilia Moritz Schwarcz (61) tem um grande currículo. Antropóloga, historiadora e cientista social, Schwarcz é professora da Universidade de São Paulo (USP), faz parte do Comitê Brasileiro da Universidade de Harvard, é Global Professor pela Universidade de Princeton e curadora adjunta do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Além disso, faz parte da equipe do Nexo Jornal, em que assina semanalmente uma coluna na qual discute questões de gênero, classe e raça.  

 

Crítica do bolsonarismo, Lilia acredita que o atual cenário político brasileiro exige que os intelectuais da academia dialoguem diretamente com grande público e possam assim contra-argumentar ideais obscurantistas levantados pelo Governo. Para ela, é sintomático que tais ideais tenham ganhado tanta força dentro do Brasil nos últimos anos, já que compomos uma sociedade excludente e intolerante.  

 

A estudiosa esteve na semana passada em Cuiabá, para o lançamento e noite de autógrafos do livro Sobre o Autoritarismo Brasileiro’, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Descontraída, fez questão de se referir ao atual ministro da Educação, Abraham Weintraub, como ‘ministro da deseducação’ e em diversos momentos despertou risos da plateia que, em grande parte, acompanha seu intenso trabalho de ativismo nas redes sociais. 

 

No seu livro ‘Sobre o Autoritarismo Brasileiro’ a senhora comenta sobre como o perfil do povo brasileiro colabora para a escada do autoritarismo no país. Para a senhora, não somos um povo acolhedor ?  

 

Schwarcz - O povo brasileiro é bem mais excludente e intolerante que receptivo, mas gosta de crer o contrário e por isso criou-se essa mitologia nacional de que somos um povo acolhedor. A própria brincadeira de que Deus é brasileiro reside nesse pensamento. Temos um passado escravista e uma sociedade racista. Temos produzido o racismo de forma muito presente e estamos matando uma geração inteira de jovens negros nas periferias.

 

A história do Brasil tem características muito particulares, afinal, foi o país que mais recebeu mão-de-obra escravizada. Além disso, é paradoxal pensar que temos a maior parada gay do país, mas também somos um país que mata em média 600 pessoas da população LGBTQ+ ao ano, pelo menos registrado. Já que nós não temos nem instituições oficiais para mensurar a violência. Toda vez que há um silêncio institucional desse tamanho é porque você tem muita contradição. Como sociedade, definitivamente estamos distantes do imaginário de povo tolerante, aberto, pacífico e acolhedor. 

"Estamos matando uma geração inteira de jovens negros nas periferias"



 

Como é ser uma mulher feminista falando política com o grande público? 

 

Schwarcz - Uma vez um rapaz me perguntou como eu me sentia como mulher escrevendo um livro sobre história do Brasil. Eu respondi: você pergunta isso para os historiadores homens? Você perguntaria isso para o Boris Fausto? A questão é que a gente tem sempre que provar a mais, que sabe fazer a mais, que consegue mais. Sobretudo quando estamos falando de política. Política é um lugar muito viril e em geral é dominada por homens. É muito importante que a gente domine esse espaço.  Na internet, com o grande público, constantemente recebo comentários ofensivos, mas também recebo muito carinho. 



E nos espaços em que a senhora falasobre História e antropologia? 

 

Schwarcz - Bem, estamos abrindo uma exposição no Masp no final do mês chamada “História das mulheres”. Você não acredita como essa exposição foi fácil de ser montada. Por uma questão muito simples: todas as telas que nós pedimos de mulheres, os museus disponibilizam com facilidade porque boa parte dessas obras está nas reservas técnicas. Sistematicamente as mulheres são tiradas das coleções permanentes e permanecem nos acervos. No acervo do Masp se você perguntar quantas mulheres artistas existem no acervo, eu te direi que 1%. Mas se você me perguntar quantas mulheres nuas são retratadas em obras, eu te direi que é a maioria. 

 

Então, tem muitas formas de lidar com isso, e como historiadora, antropóloga e cientista social eu tenho persistido muito nessa ideia. Quando montamos ‘Brasil: uma biografia’ eu lembro de ter ouvido comentários como: ‘nossa, fiquei muito encantado porque até futebol a senhora retratou’. Eu pensei, mas você acha que falaríamos da história do Brasil só tratando de corte e costura? Porque é o que se espera vindo de uma mulher. Não há uma maneira feminina de pintar? Uma maneira feminina de fazer história?



"Nós brasileiros sempre nos imaginamos de um jeito que não somos. Esse governo tem se aproveitado disso e feito da história uma espécie de campo de batalha"

Como vê a relação do jornalismo com a população e o presidente da República?

 

Schwarcz - É muito claro que o jornalismo está sob nítido ataque nesse momento. Cada país tem sua história particular, mas que faz parte de uma orquestração mais ampla. Nós estamos vendo um orquestração mais ampla nascer, que são as ‘democraduras’ [a junção de democracia e ditadura], que são modelos de governo que pretensamente seguem a democracia, mas que acreditam que a democracia se resume a ganhar eleição. 

 

O que há em comum nessas ‘democraduras’ é que são governos que têm subido sem nenhum respeito à democracia e mais que isso, sobem criticando o regime democrático. Geralmente um dos alvos das críticas é o jornalismo. Há uma batalha pela narrativa e como é de costume desses governos, você desqualifica outras narrativas e valoriza a sua própria. Não é difícil imaginar como a atuação do jornalismo está sob fogo acelerado. Há alguns dias o ‘ministro da deseducação’ chamou a Folha de S. Paulo de jornaleco. Não estou dizendo que temos que gostar ou não, mas isso não é algo esperado de um ministro da Educação. 

 

Essa lei evitando que os jornais publiquem os balancetes, é um claro ataque. São governos populistas que devolvem ao seu eleitorado aquilo que ele quer ouvir. Temos que agora mais do que nunca apoiar o jornalismo porque a imprensa de uma forma geral está numa posição muito frágil. 



Há alguns anos, a senhora se posicionava contrária às cotas. Atualmente seu posicionamento parece ser favorável. O que mudou? 

 

Schwarcz - Eu sempre agradeço muito quando essa pergunta surge. Houve um manifesto apresentado não só a mim, mas a outras pessoas, que era um estatuto sobre igualdade racial. Eu assinei e confirmo que assinei, mas prometi a mim mesma nunca mais assinar um manifesto sem pensar. Fui muito criticada pelos meus colegas na USP, que também não entenderam a minha assinatura. 

 

Mas a verdade é que sou amplamente a favor de cotas porque eu acredito na necessidade do Brasil de pensar em termos de reparação histórica. Aqui faço um parêntese para dizer que também me refiro ao regime militar. No que tange ao tema racial, eu me refiro ao fato de que os vestibulares no Brasil não são provas universais pelo simples fato de que vivemos no 9º país mais desigual do mundo. 

 

Acredito também que políticas de reparação são políticas transitórias, que tem data para começar e para terminar. Sobretudo sou favorável ao pensamento de que é preciso desigualar para igualar. Além disso, sou favorável porque eu acredito que nós sempre aprendemos muito com a diferença. O ativismo negro tem empurrado a academia brasileira para a frente e eu não tenho medo de dizer isso. 



O bolsonarismo sempre se vale do passado brasileiro, em especial da Ditadura Militar e até dos tempos de Império. Quais os motivos de suscitar esse tipo de nostalgia em parte da população? 

 

Schwarcz -É algo com o qual eu me questiono muito. Essa fixação de uma pessoa que diz falar em nome dos militares com o Império, sendo que foram os militares que derrubaram o Império. É uma grande contradição, mas receio que essa parte da história não foi explicada a ele (risos). Para além da história, o que nos importa pensar é que não só eles, mas o Brasil tem uma mania de Império. 

 

Se constrói mitologias e uma espécie de nostalgia de um passado que não existiu. Nós sempre tentamos nos imaginar nos outros, em momentos que não são nossos. Há esse imaginário em relação a uma concórdia militar que também nunca existiu. Quando acabou o regime ditatorial no Brasil tínhamos uma inflação na ordem dos três dígitos. Ou seja, o país estava quebrado. Mas mesmo assim parte da população pensa em um período de alta estabilidade.

 

Eu acho que os brasileiros, e quem também diz isso é Lima Barreto, são verdadeiros bovaristas, termo que vem de Madame Bovary. Nós sempre nos imaginamos de um jeito que não estamos e que não somos. Esse governo tem se aproveitado disso e feito da história uma espécie de campo de batalha. Eles têm projetado para si valores e momentos que jamais existiram. Como por exemplo, a discussão sobre escravidão. Nosso chefe do Executivo, quando ainda deputado federal, chegou a dizer que os portugueses jamais pisaram na África. Ora, sabemos que pisaram e muito! E fizeram muito antes de descobrirem o Brasil. 

 

O que esperar para o futuro da democracia no país? 

 

Schwarcz -Eu costumo brincar que se eu fosse uma boa visionária, trabalharia no mercado de ações. Nós não sabemos exatamente o que pode acontecer, mas o que podemos ver são os sinais que estamos recebendo neste momento. Durante muito tempo nós achamos que a democracia era um sistema completo e que já havíamos chegado ao topo. Esquecemos que faz parte da democracia, desde a Grécia Antiga, ela ser inconclusa. A democracia é sempre um projeto inconcluso. Eu digo isso principalmente porque direitos ganhos, não são ganhos, são conquistados, sendo assim a conquista tem que ser contínua. 

 

Mas não é a primeira vez que o Brasil se perdeu e se encontrou. Não é a primeira vez que nós testamos a democracia. Na minha opinião, enquanto não se inventar um outro sistema, a democracia ainda é aquela que consegue garantir mais plenamente, senão uma realidade, uma utopia de igualdade. Temos que esperar. O tempo é um feiticeiro, justamente porque não sabemos para onde ele vai nos levar.

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