Geral Terça-Feira, 16 de Junho de 2020, 07h:00 | - A | + A

CONSULTA ACADÊMICA

Após devolução de MP, UFMT volta a caminhar para escolha de nova gestão

Processo para formação da lista tríplice encontrará desafios em meio à pandemia.

Safira Campos

Da Redação

Reprodução

WhatsApp Image 2020-06-15 at 19.21.10.jpeg

 

A comunidade acadêmica da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) deve ser consultada nos próximos meses sobre a escolha da nova gestão da instituição. O mandato do atual reitor, o professor Evandro Soares, chega ao fim em outubro. Após o Congresso Nacional devolver a Medida Provisória (MP) que permitia a indicação de reitores pro tempore por parte do ministro da Educação, a UFMT deve finalmente começar o processo eleitoral da nova reitoria. 

 

Está marcada para esta quarta-feira (16), a reunião do Colégio Eleitoral Especial que deveria ter acontecido na semana passada, no mesmo dia em que a MP foi publicada no Diário Oficial da União (DOU). A retomada do processo acontece em meio a ineditismos proporcionados pela emergência global de saúde. O debate agora deve se concentrar em de que maneira a consulta será realizada na UFMT, já que aglomerações devem ser evitadas.

 

Uma das alternativas seria a realização remota da consulta, conforme é defendido por professores como Paulo Teixeira, ex-secretário de Relações Internacionais da instituição. “É um processo que será feito às pressas como nunca antes na instituição. Por causa da pandemia, não haverá os debates como tradicionalmente são feitos, os candidatos entrando em sala de aula, etc. Eu defendo que a consulta à comunidade acadêmica seja feita virtualmente, porque não temos muitas alternativas e o pior cenário com certeza seria com um interventor”, argumenta. 

 

Esta foi a solução encontrada, por exemplo, pela Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa), no Rio Grande do Norte. Por lá, cerca de 13 mil pessoas, entre estudantes, técnicos e professores da universidade sediada em Mossoró votaram virtualmente nesta segunda-feira (15) pela formação de lista tríplice de candidatos à reitoria. Para votar, era necessário ter um cadastro ativo no Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (SIGAA) da instituição. 

 

Pelo menos outras 15 instituições federais de ensino têm reitores com mandatos próximos ao fim. É o caso da Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Instituto Federal Tecnológico do Paraná (UTFPR), instituições, que, assim como a UFMT, ainda estão discutindo de que maneira será feita a formação da lista tríplice em meio à pandemia. 

 

Reprodução

WhatsApp Image 2020-06-15 at 18.05.38.jpeg

 

Expectativas dos pré-candidatos 

 

Para o professor do Departamento de Saúde Coletiva e pré-candidato a reitor, Reginaldo Silva de Araújo, a expectativa da reunião desta semana é de que o Colégio eleitoral garanta a defesa da autonomia universitária, que foi ameaçada pela MP 979 assinada por Bolsonaro (sem partido). O docente ainda defende a garantia do mesmo peso para os votos de professores, técnicos e estudantes. 

 

“Esperamos que as entidades representativas das categorias conduzam o processo como historicamente fazem dentro da UFMT e que professores, técnicos e estudantes tenham garantido o direito de escolher sua direção. Entendemos que são essas categorias que defendem a existência da universidade pública e gratuita. Esperamos que a democracia permaneça dentro da universidade”, afirmou em entrevista ao PNBonline

 

"Essa MP foi um grande susto para todos e demonstra como a autonomia da universidade tem que ser defendida" - Tereza Higa

A pré-candidata Tereza Higa, professora do Instituto de Geografia, História e Documentação (IGHD), espera que o processo que vem sendo adiado desde o começo do ano finalmente tenha início. Assim como para Araújo, Higa acredita que os esforços devem ser concentrados na garantia de que o processo seja feito da maneira mais democrática possível. 

 

“O nosso processo na UFMT está muito atrasado e temos um curto tempo para a apresentação da lista tríplice. Nesse momento, é importante garantir que seja democrático e que tenha a participação de todos, com debates online e apresentação das propostas dos candidatos à toda a comunidade. Essa MP foi um grande susto para todos e demonstra como a autonomia da universidade tem que ser defendida”, disse ao PNBonline 

 

Nesta quarta-feira, o Colégio Eleitoral deve discutir se há possibilidades técnicas para que a consulta seja feita de maneira remota. A pré-candidata Danieli Backes, professora do Departamento de Administração, defende que a universidade não possui um sistema seguro para isso. 

 

“Há algumas semanas o sistema da universidade deixou exposto dados de todos nossos alunos e ex-alunos. Isso mostra como nosso sistema é vulnerável. Fora que servidores aposentados podem não ter habilidade para participar desse tipo de consulta, como as representações mesmo argumentam”. Questionada sobre as expectativas para a reunião, Beckes preferiu abster-se. A redação ainda entrou em contato com o reitor e pré-candidato Evandro Soares, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. 

 

As investidas do Governo Bolsonaro

 

Reprodução

WhatsApp Image 2020-06-15 at 17.29.03.jpeg

 

A MP 979 colocou mais uma vez a autonomia das universidades federais no centro do debate político. Esta não é a primeira vez que o Governo Federal tenta fazer esse tipo de intervenção. Em dezembro do ano passado, o presidente editou a MP nº 914, que alterava o rito para a eleição e nomeação dos reitores das instituições federais de ensino. A MP, entretanto, não teve força e não chegou a ser posta em pauta pelo Congresso Nacional, perdendo validade no início de junho. 

 

Desde que Bolsonaro assumiu a presidência, tornaram-se sucessivas as investidas do Ministério da Educação (MEC) contra universidades e gestores. Ao PNBonline, docentes da UFMT lamentaram o que classificaram como ‘campanha difamatória’ contra a academia. 

 

“É muito triste ver um desmonte. Mas o maior desmonte que temos condições de enfrentar e evitar que aconteça é o desmonte do pensamento, porque isso eles não tiram de nós. Essa é a missão dessa geração que está hoje na universidade: evitar que esse lugar seja aparelhado para a inexistência do pensamento. É um absurdo, não? Eles pensam em maneiras de fazer universidades que não pensam”, disse a professora aposentada Ludmilla Brandão, do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT (ECCO). 

 

Pensamento compartilhado pelo doutor em Linguística, Mário Cézar Leite, também do ECCO. “Há uma campanha que eu particularmente não consigo entender que é um combate à produção científica brasileira de maneira geral e isso reverbera diretamente nas universidades. O governo elegeu as universidades como o grande símbolo do que é ruim. E eu não consigo compreender como pode fazer isso de maneira tão leviana”, lamenta. 

 

VOLTAR IMPRIMIR

COMENTÁRIOS

Copyright 2018 PNB ONLINE - Todos os direitos reservados. Logo Trinix Internet