Geral Domingo, 23 de Fevereiro de 2020, 07h:00 | - A | + A

ENTREVISTA DA SEMANA

Dom Milton afirma que Vinde e Vede é "vitrine de cidadania e evangelização"

O arcebispo de Cuiabá, em entrevista ao PNBonline, antes do início do evento, dá detalhes da organização que ele define como "aventura", fala sobre o tema da Campanha da Fraternidade deste ano e avalia a relação dos católicos com outras religiões

Da Redação

Secom-MT/Mayke Toscano

Vinde e Vede

 

Há 15 anos na Arquidiocese de Cuiabá, o arcebispo Dom Milton Santos é o responsável por boa parte dos 34 anos de existência do maior evento católico de Mato Grosso, o Vinde e Vede. Ele acompanhou a evolução do evento, que este ano deve reunir mais uma vez milhares de pessoas em um encontro de devoção e fé. Em entrevista ao PNBonline, Dom Milton que preside a missa no Memorial Papa São João Paulo II, neste domingo, às 20h,  também fala sobre a relação da Igreja Católica com outras religiões e afirma que o celibato é a melhor opção para os padres.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

PNBonline - Quais as expectativas para o Vinde e Vede?

Dom Milton - As expectativas para esse 34º Vinde e Vede são as maiores. Cheguei em Cuiabá como arcebispo e comecei a coordenar o 19º. Então, a Arquidiocese vai adquirindo experiência porque o volume é muito grande. No começo o Vinde e Vede foi nômade. Peguei quando era no Verdão, o antigo estádio. Depois passamos para a Acrimat e depois para o Memorial Papa João Paulo II, quando o Governo Blairo Maggi passou aquele espaço para a Arquidiocese cuidar. Foi o local em que o Papa João Paulo II celebrou a missa em 1991, em Cuiabá. Aquele local ficou sendo para nossa capital, um lugar sagrado.

 

PNBonline - O que o Vinde e Vede representa para os católicos?

Dom Milton - A expressão que usamos é que o Vinde e Vede é uma grande vitrine que acontece bem no início do ano, nos dias de Carnaval, uma grande vitrine primeiramente de civismo, de cidadania. Uma vitrine de evangelização, de pastoral, do cuidado das almas, de orientação das pessoas. Não é um Vinde e Vede repetição de 2019, que a história não é estática, é dinâmica. A gente sempre faz uma análise de conjuntura deste início de 2020. E o Vinde e Vede procura pinçar os acontecimentos mais marcantes de 2020, que irão acontecer para, exatamente, esses milhares de fiéis que estarão acompanhando, para saberem a fisionomia de 2020. 

 

PNB - São esperadas quantas pessoas?

Dom Milton - Começamos no sábado (22) com o Micarecristo, que é o Carnaval para jovens, às 19h com a missa. Vai a noite toda com os jovens até as 5h da manhã. Serão de 35 a 40 mil jovens. Então, imagine quantos jovens estamos tirando do Carnaval de rua. A bebida que é usada ali, é só refrigerante. Não tem cerveja. A polícia, os bombeiros não têm preocupação com droga. A entrada é gratuita. No domingo, iniciaremos às 14h. Quem coordena será a Renovação Carismática. Então, no domingo, a gente faz a abertura oficial. Com os jovens a gente faz uma pré-abertura. E vai até as 21h30. Temos feito reuniões com a Semob, os ônibus estarão com faixas ‘Memorial Papa João Paulo II”. Da Praça da República, no Palácio Alencastro, os ônibus saem dali e vão até o memorial. Ônibus de Várzea Grande virão até a Praça Alencastro. Fizemos reuniões com a Polícia Militar, Polícia de Trânsito, Bombeiros. A grande equipe de serviço chega a 2 mil pessoas. É um batalhão. A estrutura física é muito pensada, pois há uma experiência de muitos anos.

 

PNB - Como a arquidiocese viabiliza recursos para a realização do Vinde e Vede? 

Dom Milton - O governo do Estado, quando a gente pede alguma coisa, com muito prazer, nos ajuda. Para realizar este Vinde e Vede fica caro. Só a área coberta, no ano passado nós pagamos R$ 135 mil. O som, que pagamos antes R$ 145 mil; chamamos quatro empresas de som e o orçamento de cada uma, para essa que era a mais cara, dissemos vamos pegar aquela de R$ 70 mil, o outro abaixou para R$ 68 mil (risos). Fui com uma carta para o Mauro Mendes e para os outros que também ajudam. No governo, através do chefe de gabinete, conseguimos R$ 40 mil, para o som de R$ 68 mil. Aí,fomos para a prefeitura de Cuiabá, eles já ajudam com limpeza do local.  No ano passado, a prefeitura já ajudou com R$ 30 mil. Se ela, ajudar agora com mais R$ 20 mil, já são R$ 60 mil.

 

O pároco de Várzea Grande, da Paróquia Nossa Senhora da Guia, padre Marcos disse que conversou com a prefeita, Lucimar Campos. O chefe de gabinete disse que dava para ajudar com uns R$ 30 mil. Escrevi na carta que em Várzea Grande são seis paróquias que têm uma grande dimensão social no município com crianças de primeira Eucaristia e Crisma, que nós tiramos da droga. Por isso, eles fazem questão de ajudar. São coisinhas assim que fazem da organização do Vinde e Vede uma aventura. As pessoas me perguntam: dom Milton, como o senhor se lança nisso?

 

O Vinde e Vede é uma grande vitrine primeiramente de civismo, de cidadania. Uma vitrine de evangelização, de pastoral, do cuidado das almas, de orientação das pessoas

PNB - Ao final do Vinde e Vede tem a Quarta de Cinzas. É quando será o lançamento da Campanha da Fraternidade?

Dom Milton - Nós vamos lançar a Campanha na terça-feira, porque é o dia de maior afluência de fiéis. No Brasil, o lançamento dessa Campanha é na Quarta-feira de Cinzas. 

 

PNB - Irmã Dulce é o símbolo da campanha este ano?

Dom Milton - É. Ela foi ultimamente declarada santa. A mãe dos pobres. Olhando a realidade do Brasil, a Campanha da Fraternidade tem um tema: ‘Fraternidade e Vida’. Se trata de defender, valorizar a vida. A fraternidade em favor da vida, que precisa ser algo que a gente presenteia. Quando a gente presenteia a vida, a gente se compromete com quem a gente está transmitindo o presente, o dom. O slogan é a frase do evangelho de Lucas, que é a parábola do bom samaritano. A Campanha da Fraternidade é esse momento para chamar a atenção.

 

PNB - O senhor acha que o católico, o cristão, neste momento não vivencia essa mensagem? O que precisa fazer para vivenciar essa mensagem?

Dom Milton - No mundo, a instituição que mais tem obras assistenciais é a igreja Católica. Aqui na Arquidiocese temos 28 paróquias, desde Barão de Melgaço até Nobres. Fazemos o que é possível. 

 

PNBonline - Em uma pesquisa recente do Datafolha, aponta que o Centro Oeste foi a segunda região do Brasil com maior crescimento das igrejas neopentecostais. Neste sentido, a igreja católica perdeu um certo número de fiéis na região. A Arquidiocese está atenta a esse cenário, isso preocupa ou não?

 

Dom Milton - A gente não está existindo para fazer concorrência. A pessoa é a mesma ao redor de Jesus. Eles (neopentecostais) são contra Jesus, Deus Pai, Espírito Santo? não, nós também não. Nós precisamos unir forças. Nesses 15 anos de arquidiocese fazemos muita coisa em conjunto. Temos um movimento ecumênico, a palavra ecumenismo significa casa única. Temos feito reuniões de católicos, pentecostais, presbiterianos, espíritas. O ano passado, nós fizemos uma procissão fluvial no mesmo trajeto dos bandeirantes lá do Bom Sucesso, de barco da Marinha com  Estátua do Bom Jesus, descemos no Porto e fizemos uma caminhada até a catedral. A cada momento, parávamos e uma religião falava: espíritas, candomblé. Em cada parada uma denominação cristã fala porque eles estão na história de Cuiabá desde a época do ouro, dos negros. 

 

Em 15 anos que estou aqui, em nenhum momento, um atacou o outro. Deus é o mesmo, os católicos e os evangélicos não são proprietários exclusivos de Deus. Os muçulmanos, a religião de Maomé, o Alcorão, o Islamismo eles têm festas de Nossa Senhora com o mesmo nome que nós católicos temos. A festa da Anunciação, eles também tem, a festa da Imaculada Conceição, eles também tem. Os últimos dias de Maomé ele passou em Jerusalém, porque lá morreu Abraão. Maomé falou assim, destruam todas as estátuas porque só o Deus único é verdadeiro. Eles falam que os cristãos são infiéis porque nós falamos que Deus Pai é Deus, Jesus é Deus e o Espírito Santo é Deus. 

 

Eles dizem decor no Islamismo, no Alcorão, 99 títulos de Deus, Agora, eles não têm um títulos que nós cristãos temos. Se eles admitirem haverá uma implosão na religião dos Muçulmanos. Eles não falam que Deus é Pai, se falarem isso, ele tem o Filho, se é Filho tem a mesma natureza do Pai. Aí, tem que admitir o Espírito Santo. Pra nós é um só Deus, em três pessoas.

 

PNBonline - Como é a distribuição na região e a formação de pastores e padres?

Dom Milton - A quantidade maior  é católica, 70% da população na Amazônia. Há uma diferença entre pastor e padre, não vou ficar atacando. Se o pastor tem 8ª série e quiser abrir um igreja, ele abre. A cultura de evangelização deles é uma capilarização de pequenos polos e, principalmente, nos bolsões de pobreza onde nós trabalhamos também. Mas, a diferença de formar um padre é que o jovem chega para um ano de vestibular, três anos de filosofia, quatros anos de teologia. São oito anos de estudo. Eles não, o que é transmitido para os fiéis simples que não têm como avaliar? É lógico que tem a fé mas, que entendimento que eles têm sobre algo que foi escrito há dois mil anos atrás, em hebraico, traduzido para o grego, depois para o latim e depois para o português.  Agora, uma doutrina transmitida por alguém que só tem a oitava série, se bem que tem pastores bem preparados, mas o grande número não. é. Por que os crentes tem mais igrejas vazias que os católicos, por que a igreja ortodoxa, quer é católica, em que os padres podem se casar, o números de padres casados diminuem cada vez mais e os celibatários aumentam? 

 

PNBonline - Como o senhor avalia a questão do celibato na igreja católica? 

Dom Milton -Se vem a família toda, quem mantém a família  toda? é a paróquia, são os fiéis, Se é um padre, é só ele para manter. É questão de disciplina e na igreja católica a disciplina, lá no Conselho de Nicéia se tornou esta disciplina e  não vai contra os evangélicos. Só um apóstolo não era casado, João Evangelista, os outros onze tinham sogra, eram casados. Casamento não vai contra o evangelho. Eu sou de uma família de nove irmãos, três irmãs são casadas e os outros também. Quando eu estava estudando eles diziam: Milton você vai ficar preso. Depois que os três abaixo de mim (eu sou o sexto) se casaram, eles olharam para mim e disseram: você é o mais livre de todos nós. Eu penso, se Deus for justo, se tiver um lugar pertinho de Deus, ele deve colocar todos os que se casaram  e lá, longe, no fundo do céu, o Papa, os bispos e os padres. Eu não sofro tanto quanto os que se casam.  

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