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ENTREVISTA DA SEMANA

Intelectual reflete sobre conservadorismo brasileiro: “parece uma caça às bruxas”

Para pesquisador, há uma tendência de perseguição e ridicularização de tudo aquilo que é diferente.

Safira Campos

Da Redação

(Foto: Arquivo Pessoal)

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Doutor em Linguística, Letras e Artes, pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP), Mário Cézar Leite é autor, entre outros, de Mapas da mina: estudos de literatura em Mato Grosso (2005) e professor no programa de pós graduação em Estudos de Cultura Contemporânea na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Por lá, ministra aulas em que reflete sobre a transitoriedade dos corpos nas cidades. Entre as reflexões está a inquietação quanto à forma ridicularizada e muitas vezes violenta com a qual a sociedade lida com o diferente. Estar fora de um ‘padrão hétero, cis e branco’, representa, na avaliação do pesquisador, um perigo à existência de uma pessoa. É sobre o que Mário Cézar Leite considera como um onda de conservadorismo e intolerância brasileira que o PNBOnline, em entrevista especial, conversa esta semana. 

 

PNBOnline - O que o senhor destacaria como marca da relação do cidadão com a cidade?

 

Mário Cézar Leite - O que eu tenho percebido, que já era uma coisa que a gente desconfiava e nos motivou a criar esse evento. A cidade e tudo que compõe essa cidade e que é composto por ela, você tem praticamente duas formas de relacionamento. O primeiro é o relacionamento padrão. Se você é alguém padrão ou aparenta ser, o relacionamento que você tem é confortável, você tem uma espécie de segurança garantida em todos os níveis. Mas, se você não é padrão, não é dessa forma que a cidade lida com você. Se você não aparenta ser algo familiar, cotidiano ou prosaico, você corre toda ordem de riscos. 

 

PNBOnline - O que o senhor quer dizer com transitoriedade de corpos pela cidade? 

 

Mário Cézar Leite - É um sentido amplo, até mesmo de locomoção. Tem muito a ver com a forma como você se expõe visualmente, emocionalmente, enfim, de todas as formas, para a cidade e como ela recebe e absorve isso e em alguma medida, dá um retorno. Isso tem profundamente a ver com uma discussão de identidade, que só existe e se forma no momento em que se tem a alteridade, quando você é “isso” e não “aquilo”. Hoje em dia se fala muito sobre as identidades serem muito fluidas, não tendo uma identidade fixa. Isso tem muito a ver com um jogo absolutamente consciente de você se identificar com algo e ir se transformando nessa identidade que você se propõe ou quer se aproximar. Quando você escolhe um tipo de roupa, um tipo de música para ouvir, um lugar para frequentar, você está diretamente dando recortes à própria identidade. O que a gente percebe é que essas identificações não padronizadas criam uma espécie de incômodo e ruído que se coloca ali.   

 

PNBOnline - Então considera que a cidade não é acessível para todos?

 

Mário Cézar Leite - Não é. Não trata bem, persegue e ridiculariza. Quando a gente fala em cidade, a gente fala da gente que constrói a cidade e é construída por ela. Como que nós estamos tratando e lidando com esses corpos diferentes, com esse outro fora dos padrões? Via de regra, o outro sempre encarna o monstruoso, o assustador, o desconhecido. O medo do desconhecido é talvez um dos nossos maiores medos. Então, é muito mais fácil você extinguir do que conhecer. Estamos sempre em uma posição de combate ao desconhecido porque é muito mais fácil humilhá-lo e ridicularizá-lo. 

 

PNBOnline - E  como pensar em cidades mais livres? 

 

Mário Cézar Leite - Mudando o padrão imaginário mesmo. Quando você passa a tratar disso e a problematizar isso, você já está num determinado caminho. Isso implica numa humanidade compreensiva. Aqui nem cabe a palavra tolerante, porque é meio tola. Eu não tenho que tolerar o que é diferente de mim. Eu tenho que compreende-lo. O ponto básico é exatamente esse. É preciso lutar pela felicidade e promove-la. Temos que ter um movimento de maior abertura para todos esses diferenciais. Temos que compreender que tudo aquilo que não é a gente, pode ser tão bom quanto nós mesmos. O outro está apenas buscando a sua própria forma de ser feliz. 

 

PNBOnline - O senhor considera que a universidade mantém uma relação com a cidade? 

 

Mário Cézar Leite - A universidade busca ter uma boa relação com a cidade. Primeiro que todos os nossos alunos e professores vivem nessa cidade e são essa cidade. E daí você já tira qualquer tipo de separação. Quem está aqui dentro está modificando o panorama intelectual, cultural e científico da cidade é a universidade. Quando ouvimos que a universidade está encastelada não é verdade. As pessoas da cidade estão aqui. Após uma série de modificações, você tem a classe média e a classe média baixa que não era frequentadora da universidade, hoje está estudando e produzindo. O segundo ponto é que boa parte do que se faz aqui dentro em termos de pesquisa, de programas e ações se pensa para a cidade. Se você fizer um levantamento de pesquisas em todas as áreas você vai ver que o objeto principal é a cidade e as suas várias dimensões.

 

Esse governo que se estabeleceu primeiro foi eleito com uma grande representatividade e isso a gente não pode negar. Isso significa que uma  boa parte da sociedade pensa como esse governo pensa. É triste? É triste. Mas isso já mudou. Os desastres promovidos por esse governo já deram conta pelo menos para os mais lúcidos do tamanho do problema. Há uma campanha que eu particularmente não consigo entender que é um combate à produção científica brasileira de maneira geral e isso reverbera diretamente nas universidades. O governo elegeu as universidades como o grande símbolo do que é ruim. E eu não consigo compreender como pode fazer isso de maneira tão leviana. 

 

PNBOnline - Você considera há um cenário de crescimento do conservadorismo? 

 

Mário Cézar Leite - Eu concordo que há sim um grande avanço do conservadorismo, mas eu acho que nós nunca vamos saber se é algo novo ou se já estava latente. Se ele estava latente e apenas deu a cara agora, nós não vamos saber nunca. Mas, na verdade, eu não acho que isso faça muita diferença porque o que é mesmo importante é termos noção do estrago que ele está fazendo em todos os âmbitos. Parece que entramos num universo de caça às bruxas. Só que a toda e qualquer ordem de bruxa. Ninguém está a salvo. É uma intolerância absoluta. É sintomático que no Brasil haja um suicídio a cada 48h. A depressão é altamente uma doença da inadequação, do estar mas não estar no mundo. Eu digo por experiência própria de oito anos em estado depressivo. Cada vez isso está se configurando com mais violência. O problema desse conservadorismo é que se desse no nível de um debate intelectual e de uma reflexão, seria uma coisa, mas ele se dá em um tacanismo total. Parece que o que há é uma alucinação qualquer. 

 

PNBOnline - Qual o papel da arte e da transgressão em um momento marcado por esse conservadorismo? 

 

Mário Cézar Leite - Cada momento de arte e de transgressão pela arte e pela poética da existência é muito importante. Cada momento desse nesse contexto abre, rompe e tem esse poder de abrir uma fissura nessa coisa compactada nessa fissura. Nós conversamos com uma plateia, que adiante reproduz isso e o debate aumenta. A arte, ciência e a mídia têm um papel fundamental de proteção do cidadão. 

 

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