Geral Quarta-Feira, 24 de Junho de 2020, 07h:30 | - A | + A

JOÃO CARLOS CORREIA

Pesquisador teme os efeitos do home office no cotidiano e nas relações sociais

À frente de estudos de Comunicação e Política, o pesquisador português atribui a ascensão da extrema direita ao medo gerado pelas transformações tecnológicas.

Amauri Teixeira

Correspondente em Lisboa

João Carlos Correia

 

Referência nos debates sobre novas mídias, formas de comunicação e seus impactos na sociedade, o doutor em Ciência da Comunicação e professor da Universidade da Beira Interior (UBI), em Portugal, João Carlos Correia, vê com preocupação a tendência de que o chamado home office se torne uma prática permanente. Em todo o mundo, por causa da pandemia da covid-19, milhões de pessoas passaram a trabalhar em casa, uma exigência do isolamento social para reduzir o contágio da doença. À frente de um laboratório de mídias regionais e um dos coordenadores do Grupo de Trabalho de Jornalismo e Sociedade da Universidade, João Carlos Correia enxerga a possibilidade de ocorrer uma “colonização por meio da comunicação”, um processo que desmonte os acordos trabalhistas, exija das pessoas um tempo excessivo de dedicação ao trabalho e provoque distúrbios sociais e emocionais. “A flexibilização no trabalho pode ser o fator para uma completa desregulação das condições sociais”, afirma.

 

Para dar um exemplo dos possíveis efeitos do teletrabalho, como a prática é conhecida em Portugal, Correia conta que nunca trabalhou tanto no atendimento aos estudantes. Por estar o tempo todo diante da tela do computador, não param de chegar perguntas e pedidos de orientação de seus mais de 100 alunos. “Mesmo sem querer, isso cria uma espécie de cyber bullying. Uma multidão passa a exigir mais de nós”, exemplifica.

 

Autor de vários livros, entre eles Comunicação e Cidadania, que aborda o papel da comunicação na formação da sociedade, João Carlos Correia acredita que o processo de transformação da revolução tecnológica que estamos vivendo gerou um medo coletivo em relação às mudanças e ao futuro, o que favoreceu a ascensão de líderes de extrema-direita, como as eleições de Donald Trump e de Jair Bolsonaro. “As redes sociais permitiram a formação de comportamentos de massa, mas em pequenos nichos. Os comportamentos de exaltação do chefe, de slogans, de ideias muito militarizadas”, pondera. 

 

Professor associado no Departamento de Comunicação e Artes e editor da Revista Estudos em Comunicação, Correia acredita que o surgimento de governos de extrema direita é algo pontual, num cenário mundial e histórico de consolidação da democracia. “A prevalência da democracia é um avanço enorme se olharmos para a longa história de barbárie da humanidade”.

 

Em tempos de intolerância, quando o debate de ideias foi substituído pela troca de insultos, conversar com um intelectual como João Carlos Correio é um bálsamo. Suas ideias são marcadas pela racionalidade e pelo equilíbrio. Em vez de maniqueísmos, usa como argumento o conhecimento, recorre a fatos históricos e busca compreender a motivação dos movimentos políticos e sociais.

 

Na semana passada, por meio de uma plataforma de videoconferência (em respeito às recomendações de distanciamento social em Portugal), o professor João Carlos Correia conversou por quase quatro horas com o correspondente em Lisboa, Amauri Teixeira. Atento aos acontecimentos mundiais, Correia conhece quase todas as capitais do Brasil, onde esteve há alguns anos para uma série de palestras. 

 

A seguir, acompanhe os principais trechos da entrevista concedida com exclusividade ao PNB Online

 

As redes sociais podem colonizar nossa comunicação cotidiana

 

João Carlos Correia

 

Muitos de nós lidaram pela primeira vez com uma quantidade imensa de mecanismos de comunicação que não estávamos habituados a lidar. Isto tem alguns aspectos positivos e alguns aspectos negativos. A existência das redes sociais em si mesmo não é necessariamente negativa,  permite vencer ao isolamento. A questão é até que ponto as redes sociais não vão colonizar as nossas formas a comunicação cotidiana. Colonizar no pior sentido, isto é,  o outro se transforma numa espécie de presença virtual, uma espécie de personagem de tela. É sabido desde sempre que uma presença real, frente a frente, uma interação não mediada, é muito mais rica do que uma interação mediada. A interação mediada confere algum artificialismo no relacionamento, desumaniza, retira contexto. É muito fácil haver equívocos na comunicação mediada,  porque, como há falta de contexto, as pessoas não têm a presença para contestar, interromper, pedir para explicar de novo. Também existe uma componente da linguagem corporal, que desaparece, o que pode provocar uma enorme dose de  equívocos. Todos sabemos que é diferente estar diante de uma câmera do que estar diante de uma pessoa. 

 

Trabalho em casa ameaça desregular as condições sociais

 

Outra questão é saber até que ponto essa colonização do cotidiano pelas redes sociais não vai levar também a uma invasão excessiva do teletrabalho. As ideias neoliberais conheceram algum desenvolvimento a partir dos anos 80, conheceram a aceleração dessa sua intervenção nos anos 90. As linhas liberais, do ponto de vista econômico, passaram por Portugal e pela União Europeia na crise das dívidas soberanas e entraram no Brasil. O ministro Paulo Guedes reforça a ideia da rentabilidade e da eficácia, pela flexibilização da legislação, a rentabilização ao máximo do trabalhador e do empreendedor. É uma lógica que as redes sociais podem acelerar muitíssimo.  A flexibilização no trabalho, por si mesma, não é má, mas pode ser o fator para uma completa desregulação das condições sociais. Se flexibilizar for garantir que as pessoas cumprem prazos, em condições de ganhar autonomia, será positivo. Se flexibilizar for garantir a onipresença de uma entidade empregadora ou do próprio cliente, de tal maneira que a privacidade do cidadão deixe de existir, então será certamente negativo. Poderá provocar problemas de direitos humanos, não apenas ao nível da privacidade, mas provocar problemas de direitos sociais ao nível da própria ocupação do tempo. Ao nível do próprio vínculo contratual do trabalhar com o empresário, portanto, ao nível econômico. 

 

Distanciamento social e dependência da internet afetam a saúde mental

 

Ainda no plano comunicacional, a questão das redes sociais no contexto da pandemia provocou uma coisa terrível. Verificamos como a resposta rápida a uma engenharia social se pode tornar extremamente traumatizante. Transformamos nosso cotidiano com a intervenção de uma tecnologia. É uma engenharia social, não é uma mera engenharia tecnológica. Quando as pessoas passam a usar como forma privilegiada de comunicar uma máquina, isso modifica um bocado algumas questões. E isso ainda foi feito numa situação de urgência.

 

"Hoje as pessoas se juntam em grupos pequeninos, no WhatsApp, nas redes sociais, e espalham ideias sem se exporem ao contraditório, o que leva, por exemplo, à multiplicação das fake news. As pessoas tendem a juntar-se em torno das ideias que são iguais as suas e isso leva ao que chamo de partilha seletiva"

Conheço casas que, sob o ponto de vista da saúde mental, tiveram alguma perda de qualidade de vida. Se existirem quatro pessoas a disputarem computador para trabalhar, os filhos, a esposa, o marido, a situação se complica. Isso implica em despesa, autorregulação do tempo, disciplina. Também é preciso uma certa privacidade para pensar.

 

Existe uma questão que me assustou e serve de alerta para as pessoas que estão a trabalhar em casa. Sou professor e, a certa altura, como os alunos estavam em pânico, sentiam que nós estávamos em atendimento permanente. Assim, podíamos estar a qualquer momento a responder. Isso cria uma situação que, mesmo sem querer, vira uma espécie de cyber bullying. Uma multidão a exigir mais de nós. Imagine uma sociedade assim, em que o seu balcão está permanentemente aberto? Isso gerou muitas situações de burnout, de esgotamento e de estresse. Nas farmácias portuguesas, esgotaram-se os estoques dos medicamentos para o estresse e para a ansiedade. Esse é um fenômeno que tem se verificado por todo o mundo.

 

O risco das bolhas de pensamento que não admitem ideias divergentes

 

No livro Alone Together, Sherry Turkle conta que levou a filha para conhecer Paris, mas que a filha não dava atenção às atrações da cidade, só ficava teclando no celular, só queria estar com o seu grupo. Essa permanência do grupo é outra coisa que tem uma dimensão muito preocupante com o trabalho. Deixamos de ter uma experiência individual, transpomos isso para o grupo e estamos sempre numa situação de sufoco, para usar uma expressão que os brasileiros usam. 

 

Passando isso para a política, o apelo do grupo torna-se de tal maneira cativante que temos a tendência de ficar com os que pensam como nós, dentro de pequenas bolhas de pensamento. Essa é uma tendência que vimos crescer na segunda parte do século 21, que teve as suas consequências políticas a partir de 2016, com a eleição de Donald Trump, a eleição de Jair Bolsonaro, o Brexit, entre outros eventos. As redes sociais dos líderes da extrema direita mobilizaram muita gente que tinha preconceitos anti-imigrantes. São fenômenos que politicamente têm vindo a acentuar-se muito.

 

Toda a ideia da antropologia mostra que o grupo não é, necessariamente, virtuoso. O grupo muitas vezes cita-se mutuamente e começa a dialogar dentro de si e ouvindo-se apenas a si próprio. Até expulsar quem não pertence ao grupo e louvar apenas uma única forma de pensamento. As redes sociais permitiram a formação de comportamentos de massa mas em pequenos nichos. Os comportamentos de exaltação do chefe, de slogans, de ideias muito militarizadas.

 

João Carlos Correia

 

O medo move as pessoas na direção do populismo

 

Podemos ver muitas mudanças, mudanças no trabalho, na política, na geopolítica, nas preferências, nos valores, na economia. As pessoas hoje têm um bocado de medo, logo facilmente se juntam a grupos, necessitam de respostas. Creio que isso pode explicar esta tendência para comportamentos de massa em que o eu individual se perde um pouco para estarem todos a dizer o mesmo. Isso é feito hoje em pequenas comunidades fechadas.

 

O que leva aos populismos dos anos 30? O medo. O que levou tanta gente a perseguir os judeus, a votar em movimentos populistas, a votar em organizações extremistas? Na minha perspectiva, foi o medo. Tinha havido uma crise econômica, uma crise sanitária, a gripe espanhola e outras situações que surgiram entre as duas guerras. Tudo isso contribuiu para uma sensação de receio pelas pessoas. 

 

Podemos comparar o século 21 com os anos 30 porque vivemos muitas coisas ao mesmo tempo. Os blocos tradicionais desaparecem, houve um rearranjo estratégico, o que levou a uma modificação enorme de valores culturais. O trabalho sofre uma modificação enorme com a tecnologia e com as redes. Tivemos crises econômicas imensas, a mudança climática. As pessoas sentem que hoje em dia o mundo não é mais o mesmo. O medo acaba por prevalecer. É o medo da ruptura, e que o mundo deixe de ser aquilo que era.

 

A nossa sociedade tem uma semelhança com a dos anos 30 e existe uma tendência de as pessoas se juntarem. Nos anos 30, se juntavam em massas. Hoje as pessoas se juntam em grupos pequeninos, no WhatsApp, nas redes sociais, e espalham ideias sem se exporem ao contraditório, o que leva, por exemplo, à multiplicação das fake news. As pessoas tendem a juntar-se em torno das ideias que são iguais as suas e isso leva ao que chamo de partilha seletiva. Partilhamos muito mais facilmente aquelas notícias que estão de acordo com o que o grupo pensa, tanto faz se isso é verdade ou mentira. Como dizem os italianos, se non è vero è bene trovato  (se não é verdade é bem encontrado).

 

A revolução industrial e a atual revolução tecnológica se assemelham como momentos de grande transformação

 

Temos dois momentos de globalização, a que vivemos agora e a revolução industrial. Ambas geraram exploração imensa e uma criatividade enorme. 

 

Essa situação aparece no Manifesto Comunista de Karl Marx. Meus alunos gostam muito porque substituo algumas palavras de um capítulo do texto e parece que estamos a falar do nosso tempo. É engraçado. São momentos de enorme transformação, a revolução industrial e a revolução tecnológica do século 21, momentos de imensa transformação. Destroem uma série de coisas antigas e lançam uma série de coisas novas. Simultaneamente, criam-se formas de transformação pavorosas, isso é acompanhado por uma criatividade e por um desenvolvimento comunicacional e cultural que nem sempre é devidamente apreciado, e é acompanhado por enormes movimentos de resistência e tentativa de outros caminhos. Essa coisas aconteciam em simultâneo na revolução industrial e acontecem agora.  A história ensina-nos muito. 

 

A democracia é contra-factual, sua predominância já é motivo de otimismo

 

Por que diante do medo das mudanças prevalece o egoísmo, a intolerância, a mesquinhez? É uma pergunta que faço sempre a mim mesmo e talvez o problema esteja na pergunta. Precisamos reparar que a democracia é contra factual. A democracia é pormos as pessoas a meter na cabeça a ideia que tem que se colocar no lugar do outro. A sobrevivência exige, às vezes, alguma ação individual e às vezes exige a ação social. E nem sempre a ação social é virtuosa, nem solidária. Muitas vezes, ela é estratégica e oportunista. 

 

"A prevalência da democracia é um avanço enorme se olharmos para a longa história de barbárie da humanidade. Esse esforço não deve ser minimizado. E nesse esforço a comunicação tem extrema importância"

A democracia exige uma enorme quantidade de coisas, ou a herança judaica cristã exige ao homem. Exigiram que cada um de nós nos colocássemos no lugar do outro, exigiram que fôssemos capazes de imaginar o que o outro estaria a pensar de nós, que admitíssemos a possibilidade de incluir dentro do estado uma lógica de oposição. O estado instaura dentro de si um mecanismo de oposição. Isso é contra factual e, só pelo fato de isso acontecer, deveríamos ser muito otimistas.

 

Deveríamos pensar da seguinte maneira: como é que apesar de tudo, só acontece de vez em quando um Trump, um Jair Bolsonaro, um Adolf Hitler, ou um presidente das Filipinas como Rodrigo Duterte, ou um André Ventura (deputado de extrema direita e candidato à presidência em 2021), em Portugal? Por que isso só acontece de vez em quando? Acontece quando há medo, quando surge a necessidade de personalidades autoritárias para darem respostas simples.

 

Mas temos uma conquista, que muitas vezes não valorizamos. Nos últimos 150 anos, conseguimos generalizar uma forma muito imperfeita de regime, que impõe que nos coloquemos no lugar do outro, que impõe que resolvamos nossos conflitos de maneira preferencialmente política e pacífica e que exige que o Estado seja responsável. A prevalência da democracia é um avanço enorme se olharmos para a longa história de barbárie da humanidade. Esse esforço não deve ser minimizado. E nesse esforço a comunicação tem extrema importância.

 

As pessoas estão mais preocupadas com a identificação das ideias do que com a veracidade dos fatos

 

As pessoas não partilham as notícias pela veracidade dos fatos, mas pela concordância com as ideias. Num ambiente fechado, anônimo, ocorre um nivelamento que é baseado na falta de respeito, na intolerância. Os dados recentes do Reuters Institute indicam que houve um aumento de 900% nas denúncias de veiculação de fatos falsos durante a pandemia.

 

Também deve ser observado que a partilha não é democrática, as pessoas partilham muito mais informação de pessoas da elite. Por isso, o Reuters Institute considerou extremamente importante e positiva a atitude tomada pelo FaceBook e pelo Twitter em relação a mensagens do presidente do Brasil e do presidente Trump. As duas redes começaram a fazer alguns alertas sobre essas fontes. O que se constata é que grande parte da partilha da informação falsa parte de pouquíssimas fontes. E é um fenômeno de cima para baixo. 

 

As pessoas estão mais vulneráveis ao achismo e à desinformação

 

Me recordo de uma ideia do Umberto Eco. Ele adorava a internet, passava a vida ligado, porque ele se entusiasmava com as novidades, mas disse que lamentava que a internet tinha dado voz ao tontinho da aldeia. Surgem críticas de elitismo a afirmações como essa, mas, independentemente dessas críticas, hoje existe uma crise generalizada em relação à certeza e à segurança. Nunca se achou tanto. Esse ambiente ainda é alimentado pela insegurança econômica, pela insegurança do clima. Então as pessoas estão suscetíveis ao achismo, estão mais vulneráveis para criar um ambiente de desinformação.

 

"As pessoas não partilham as notícias pela veracidade dos fatos, mas pela concordância com as ideias. Num ambiente fechado, anônimo, ocorre um nivelamento que é baseado na falta de respeito, na intolerância. Os dados recentes do Reuters Institute indicam que houve um aumento de 900% nas denúncias de veiculação de fatos falsos durante a pandemia"

Gosto da ideia de haver uma possibilidade universal de acesso à palavra. Mas acredito que é necessária a existência de instâncias mediadoras. Sem censurar, mas mediar o discurso. E sabemos que o mediador nunca será perfeito. Não sou um saudosista do tempo em que a mediação era feita pela mídia tradicional. A mediação nunca será um processo desinteressado. Temos a obrigação de conseguir uma mediação o mais perfeita possível, dentro daquilo que as perfeições da humanidade permitam. Precisamos de algo que permita que ouçamos uns aos outros com respeito e que aceitemos que vale a pena ter em conta determinados mecanismos de progresso. Um desses mecanismos foi trazido pela ciência, a ideia de que é possível fazer uma experiência e obter uma prova. No plano político, podemos aceitar que é possível debater para chegar a uma conclusão melhor. 

 

Podemos ensinar as pessoas de que, às vezes, é preciso pensar mais devagar

 

O Prêmio Nobel de Economia Daniel Kahneman escreveu um livro que chama Pensar Depressa e Devagar. Há um pensamento rápido e intuitivo, maniqueísta e baseado na associação de ideias. Há um pensamento lento, deliberativo, que acompanha o processo científico e o processo argumentativo. Algumas pessoas acreditam mais em notícias falsas porque estão mais dominadas pelo pensamento rápido. São mais intuitivas e emotivas, mais rápidas em associar ideias. Não significa que sejam mais estúpidas, significa apenas que têm um processo de raciocínio mais baseado na intuição rápida. Foram feitos painéis com esses dois tipos de pessoas. Chegou-se à conclusão que as pessoas que têm um pensamento mais lento, que são mais analíticas, tendem a identificar mais facilmente as notícias falsas. Isso tem a ver com as redes e com a internet, que é o mundo da ausência de mediação, da associação rápida de ideias, do link. Isso é necessariamente negativo? Não, porque o pensamento rápido é extremamente necessário em alguns momentos da nossa vida. Mas entregar a comunicação a um fenômeno de estímulo, a um mecanismo de respostas muito rápidas, e não criar mecanismos que contrabalancem essa tendência, é perigoso.

 

Acredito que a literacia midiática pode ajudar a ensinar as pessoas que de vez em quando é necessário pensar de uma forma lenta, ponderar, contrastar, verificar. A literacia midiática deve ter uma componente cívica. Não podemos cair no paternalismo e dizer isso é bom, isso é mau. O que se pode fazer é mostrar às pessoas que é preciso desacelerar um pouco o raciocínio, para que não sejam enganadas. 

 

Mídia tradicional recupera leitores na pandemia, mas crise financeira do setor persiste

 

Durante a pandemia, toda a gente voltou às mídias tradicionais. Houve um regresso brutal à mídia tradicional. Os veículos portugueses atingiram picos de visualizações e fizeram um trabalho sensacional em termos de conteúdo. Isso também aconteceu com os grandes jornais europeus. Esse fenômeno ocorre também porque muitos dessas mídias abriram seus conteúdos, deixaram de cobrar pelo acesso.

 

"Precisamos de algo que permita que ouçamos uns aos outros com respeito e que aceitemos que vale a pena ter em conta determinados mecanismos de progresso. Um desses mecanismos foi trazido pela ciência, a ideia de que é possível fazer uma experiência e obter uma prova. No plano político, podemos aceitar que é possível debater para chegar a uma conclusão melhor".

Apesar do aumento nos acessos, grande parte dos veículos precisa de ajuda financeira do estado. A Covid mostra uma crise que já era antiga, relativa ao modelo de negócios e da publicidade na mídia tradicional. Agora, para cada mídia tradicional existem muitas outras que distribuem fake news. Alguns dos sites que têm sido denunciados por distribuir fake news estão registrados na entidade reguladora da comunicação social, que é responsável pela qualidade e o pluralismo na comunicação. Se não houver regulação e mediação, como ficam as pessoas mais desprotegidas? 

 

Taxa de mortalidade dos jornais é grande e o modelo de negócios ainda não está claro

 

Entre os pequenos veículos de comunicação, alguns jornais sobrevivem pelo enorme amadorismo, graças aos baixos salários e graças à dimensão quase familiar de muitas das empresas. Alguns estão em regime pré-industrial. Aqui em Portugal está havendo uma grande mortalidade deste setor, mas os que se mantêm não é normalmente por boas razões, é porque ainda poupam demais na despesa, isso não melhora o produto. Depois, os veículos médios já realizaram algum investimento e já cresceram. A taxa de mortalidade desses jornais é muito elevada e ainda continuam a existir imensas interrogações sobre o modelo de negócios, que ainda não está bem definido. Há vários modelos positivos que podemos citar. Temos um laboratório de mídias regionais. Fizemos uma série de conferências em que os diretores estavam presentes. Todos reconhecem que estamos numa fase de pesca a linha, ou seja, não é pesca de alto mar. Primeiro, o que temos é pluralidade de fontes de receita, que podem incluir os modelos da assinatura parcial, crowdfunding, micro funding, recursos marketing relacional, com a  promoção de eventos e relação com o público, patrocínios, com projetos da União Europeia ou do Google. As pessoas vão tentando um mix da qual a publicidade faz parte, mas já não resolve tudo.

 

"Temos um laboratório de mídias regionais. Fizemos uma série de conferências em que os diretores estavam presentes. Todos reconhecem que estamos numa fase de pesca a linha, ou seja, não é pesca de alto mar. Primeiro, o que temos é pluralidade de fontes de receita, que podem incluir os modelos da assinatura parcial, crowdfunding, micro funding, recursos marketing relacional, com a promoção de eventos e relação com o público, patrocínios, com projetos da União Europeia ou do Google. As pessoas vão tentando um mix da qual a publicidade faz parte, mas já não resolve tudo".

O jornal britânico The Guardian e outros jornais pedem apoio para manter suas linhas editoriais, para continuarem a ser independentes. Isso ajuda, mas tem que fazer parte de um mix, evidentemente. Claro que isso é uma receita, mas não é só pelo dinheiro. Isso também cria vínculo com o leitor, porque dá um sentimento de pertencimento.

 

Um modelo de negócio que serve de exemplo para os sites de hoje

 

Temos um exemplo interessante aqui em Portugal. O Jornal do Fundão (editado na região da Serra da Estrela, centro de Portugal), emitiu no passado o que chamou de ações, que na verdade eram práticas de solidariedade para a manutenção do jornal. Como isso reforçava um sentimento de pertencimento, o jornal publicava o nome das pessoas que compravam essa ação, que era um fator de prestígio. O Jornal do Fundão criou uma coisa chamada Jornadas do Interior, os maiores intelectuais portugueses e brasileiros visitavam o Fundão para discutir o futuro do interior e o jornal amplificava isso, o que lhe dava uma projeção em vendas e credibilidade. Um dos convidados foi um tal de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, que veio a Portugal, em 1957, não visitou o governo português, não visitou Salazar, mas visitou o diretor do jornal, António Paulouro, e passeou no Fundão. O Jornal do Fundão fez muitas coisas que agora estão sendo feitas no online. Evidentemente que vivemos numa conjuntura diferente, que a mídia em geral não tem em nossas vidas a exigência que a imprensa tinha no passado. 

 

Cidadania e prestação de serviço são diferenciais para o sucesso da mídia regional

 

A mídia regional tem muito futuro. Na Europa, existem lugares em que estão indo bem. Há muita crise, mas a proximidade que alcançam abre uma possibilidade interessante. Na Catalunha e em algumas regiões autônomas, a mídia tem se consolidado primeiro pela cidadania, que é uma questão fundamental. A economia é outra questão importante. A cidadania implica vínculo e faz com que as pessoas encontrem na mídia o modo de se articularem com a comunidade. Isso não implica apenas na política, mas abrange também a cultura e a informação de serviço. O jornalismo de serviço é muito importante, é fundamental prestar informação útil, real, com utilidade. Aqui, temos um caso de sucesso, foi criado um site que chama Brasileiros na Covilhã (cidade na região da Serra da Estrela, no centro de Portugal). As universidade portuguesas têm muitos brasileiros, mas quando essas pessoas queriam informações básicas, úteis, não encontravam. Aí, resolveram criar o site Brasileiros na Covilhã, é um sucesso e funciona muito bem. 

 

Sem independência econômica e editorial não há jornalismo

 

Como manter a independência dos veículos jornalísticos é a pergunta de 1 milhão de dólares. Esse é um permanente jogo de gato e de rato. O prêmio Pulitzer premia alguém que fez um grande trabalho jornalístico. Joseph Pulitzer doou dinheiro para financiar a Universidade de Columbia, que administra e coordena as premiações. Pulitzer era um magnata da mídia que praticava o sensacionalismo mais abjeto e mais retrógrado que se pode imaginar. Os primórdios do jornalismo industrial fazem-nos corar de vergonha. O jornalismo começa no século 19 e se tornou possível por causa dos pequenos anúncios. E a quem o jornal se destinava? A quem tinha algum dinheiro e alguma alfabetização. É provável que o jornal tenha sido, sem querer, uma escola de democracia, só pelo fato de ter atraído mais gente para ler e para se informar. A independência da mídia foi sempre uma luta constante. Nos meios da mídia regional, a autonomia é extremamente complexa. Uma vez, eu e um amigo fundamos um pequeno jornal regional independente, com as características de um jornal irreverente. Fomos um sucesso e duramos dois anos. Um sucesso de vendas. Ao fim, estávamos esgotados psicologicamente, tínhamos colecionado um conjunto de adversários razoável e a publicidade estava a diminuir. Sem independência econômica e sem independência editorial não há jornalismo. 

 

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