Segunda-Feira, 22 de Fevereiro de 2021, 07h00
CULTURA CONTEMPORÂNEA
“Arte é fundamental para não embrutecermos e sabermos que há uma luz mais adiante”
Coordenadora do curso de Pós-Graduação em Cultura Contemporânea da UFMT conversa com o PNB Online sobre o papel da cultura em momentos turbulentos como o atual.

Safira Campos
Da Redação

Arquivo Pessoal

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Maristela Carneiro é professora desde 2019 da Faculdade de Comunicação e Artes (FCA) e atual coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Graduada e com doutorado em História, a docente possui também mestrado em Ciências Sociais Aplicadas. Ao longo dos anos na carreira acadêmica, tem se dedicado a estudar e analisar questões relacionadas a gênero, feminismo, masculinidades, pensamento decolonial, além de arte e cultura. Nesta entrevista, a pesquisadora conversa com o PNB Online sobre o momento de ataque à arte e à transgressão e a onda conservadora que ganhou força nos últimos anos em diversos países do mundo. Além disso, ela compartilha como encara os desafios vividos pelas universidades brasileiras e as descobertas da vida de docente.  

 

PNB Online -  Qual a relevância dos estudos sobre cultura para um país? 

 

Maristela Carneiro - O ECCO é um Programa de estudos culturais contemporâneos, em uma linha sempre interdisciplinar. Isso favorece tanto um processo de sensibilização sobre arte e sobre poéticas, quanto uma sensibilização política. Favorece as pessoas a perceber nuances políticas com mais facilidade. O Ecco tem três pilares que são os estudos culturais, os antropológicos e de comunicação. Essas linhas de pesquisa fazem com que as pessoas se posicionem mais, conheçam mais a sua realidade, se aproximem de debates de relevância social como feminismo, movimento negro, abordagens acerca de minorias como um todo. Muitos estudos também se pautam em compreender a formação complexa que é Mato Grosso, que é o Centro-Oeste. Além de outros estados e países, já que recebemos muitos intercambistas também. 

 

PNB Online - Sua pesquisa se volta para questões como Gênero, Feminismo e Masculinidades. Com base nisso, como você percebe que o conservadorismo atravessa o Brasil atualmente? 

 

Maristela Carneiro - Esse conservadorismo é marcado por um pânico moral que ataca determinados grupos de pesquisa, temas e pessoas, que são visto como perigosos ou tachados por políticas públicas conservadoras ou mesmo por governos que beiram o fascismo. Esses ataques partem dessa visão de mundo que diz que as pessoas precisam ser iguais, obedientes e que não devem questionar os seus lugares. Tudo isso numa noção de política muito deturpada que acaba criando mais marginalidade, mais vulnerabilidade. Os estudos de gênero, por exemplo, questionam isso e propõem um debate que parte de um viés de construção social, cultural e relacional. Estudar gênero é pensar em como é a sociedade, como chegamos até aqui e o que nós podemos fazer para melhorar e caminhar para uma noção mais completa de justiça social e empatia. 

 

"A arte não é vista pelos governos conservadores como algo relevante ou primordial"

PNB Online - Você considera que o povo brasileiro se aproximou de um discurso de ataques nos últimos anos?

 

Maristela Carneiro - Sem dúvidas. Nós vemos um crescimento desses discursos conservadores não apenas no Brasil, mas por toda a América Latina, nos Estados Unidos, na Europa. Nós vemos uma onda cada vez maior que acaba fazendo mais eco em países que já têm uma democracia fragilizada e que vêm de crises econômicas, como é o caso do Brasil. Há um processo de fortalecimento de políticas repressoras, de militarização da política, e isso não acontece apenas no Brasil, mas temos a impressão que estamos com um cenário pior que em outros momentos e lugares. 

 

PNB Online  -  Qual o papel da arte e da transgressão em momentos como este de pandemia?

 

Maristela Carneiro -  Há uma frase do Ferreira Gullar que fala que ‘A arte existe porque a vida não basta’. E é nesse sentido. A arte não é vista pelos governos conservadores como algo relevante ou primordial. Mas, por exemplo, o que as pessoas fazem em um momento de pandemia? As pessoas assistem a séries, novelas, lêem mais. Nós vemos que nesse momento muitos acabam se apegando a produtos artísticos, culturais e midiáticos. Boa parte dessas linguagens e poéticas questionam os lugares estabelecidos, questionam quem tem mais a oportunidade de usar a voz e quem não tem. A arte mais do que nunca é fundamental para nós não nos desensibilizarmos. Para que a gente não se embruteça e consiga perceber que existe uma luz mais adiante e que nós podemos sim fazer melhor e construir mais justiça social e ter o respeito à diversidade. Precisamos acreditar nisso, porque se não a gente desiste e entrega o mundo aos terraplanistas (risos). 

 

PNB Online -  Como as universidades devem atuar neste momento de ataque à ciência e às instituições? 

 

Maristela Carneiro - A noção de universidade pública é que seja uma instituição que priorize ensino, pesquisa e extensão. A universidade não sobrevive só do ensino, porque ela se torna elitizada e distanciada da sociedade. Ela precisa dos outros dois pilares. Dessa forma, se criam pontes entre a universidade e a sociedade, já que a universidade se coloca a serviço das pessoas diretamente, conforme as demandas de cada espaço e comunidade. Hoje, nós não conseguimos imaginar Cuiabá sem a UFMT, porque a universidade é fundamental para tensionar os poderes estabelecidos e para a construção da própria noção de cidade e do que pertence a ela. A UFMT questiona e constrói uma Cuiabá mais plural, acolhedora e democrática, mesmo com todas as dificuldades. 

 

PNB Online - O que há de mais marcante em ser uma professora universitária até aqui?

 

Maristela Carneiro - Eu acho muito sensacional a oportunidade de ter sido aprovada no concurso nesse momento, que é de obscurantismo. A crise não é apenas pandêmica de 2020, é uma crise que se agrava com a pandemia, mas é anterior a ela. Então nós temos visto cada vez menos concursos, a quantidade de vagas diminuindo, professores se aposentam e as vagas não são repostas. Ser concursada, empossada e ter a oportunidade de trabalhar num programa interdisciplinar, em um departamento de arte, é único e muito marcante. Só o fato de estar na UFMT e fazer parte do ECCO, especialmente na coordenação do ECCO, é um grande presente. 


Fonte: PNB Online
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