Política Sexta-Feira, 07 de Agosto de 2020, 05h:51 | - A | + A

"Vamos tocar a vida"

Entre sorrisos, Bolsonaro esvazia a marca dos 100 mil brasileiros mortos pela Covid

Pedro Pinto de Oliveira

No seu jeito esperto de ser, entre sorrisos, o presidente Jair Bolsonaro antecipou ontem a repercussão sobre a iminente marca trágica de 100 mil brasileiros mortos pela Covid-19.

 

Antes de ser perguntado, a estratégia comunicativa foi falar primeiro, para esvaziar a pauta da mídia. Em seu egoísmo militante, Bolsonaro cuida de si, dos seus interesses políticos. A falácia posta em ação é a lógica da inevitabilidade da morte. Ou seja, morrer  é condição inevitável da vida, o presidente não tem nada a ver com isso. Com denodo e cinismo, o presidente afasta o debate político do que importa: julgar a omissão da sua responsabilidade de comandar o país no enfrentamento da pandemia, uma posição que o STF decidiu desde o início da crise. Naturalizando a morte inevitável, Bolsonaro afasta a discussão que o Brasil ainda não deu conta de cobrar.

 

A estratégia da inevitabilidade e antecipação foi posta em ação na sua live desta quinta-feira (06/08).  O presidente pergunta ao general da Saúde que está ao seu lado se o país já vai chegar às 100 mil mortes pelo vírus. O tom é meio distraído, como se realmente estivesse alheio. E comenta:

 

“A gente lamenta todas as mortes. Está chegando ao número 100 mil talvez hoje, não é? Mas vamos tocar a vida e encontrar uma maneira de se safar desse problema.”

 

Safar do problema é reafirmar que o problema não lhe pertence. As mortes seriam um problema político só dos governadores e prefeitos. Assim, a única preocupação do presidente, já manifestada publicamente, é que os mortos, "dos governadores e prefeitos", não sejam colocados no seu colo. 

 

Eduardo Pazuello o general da ativa que faz o papel de ministro da Saúde, também comentou na live, comparando, sem corar, a pandemia da Covid-19 com o HIV.

 

“O HIV continua existindo, algumas pessoas são contaminadas, muito se tratam. Vida que segue. É assim que vai ser com o coronavírus”.

 

A vida segue, vamos tocar a vida, esses são os argumentos do presidente da República e do ministro da Saúde para explicar a desimportância da pandemia que mata milhares de brasileiros: é uma coisa normal, natural. Um problema que não lhes diz respeito. A missão de esvaziar a repercussão foi feita construindo um muro de proteção entre o governo e a realidade.

 

Além da evidente estratégia de escapar do foco, a omissão da responsabilidade que lhe cabe no enfrentamento da pandemia, a cena reforça traços do caráter do presidente. A vida é um bem descartável, desde que seja a vida dos outros, desde que seja para cumprir os seus interesses. 

 

Vale lembrar a rara crítica feita por ele ao desempenho da ditadura militar no Brasil: “O erro da ditadura foi torturar e não matar” (entrevista à rádio Jovem Pan, junho de 2016). E o mote com que ele animava seus seguidores durante a campanha eleitoral de 2018: “Vamos fuzilar a petralhada”.

 

Essas cenas de esperteza diversionista só reforçam que ele sabe do que tem pela frente, e tenta empurrar com a barriga: cedo ou tarde, Bolsonaro terá que prestar contas aos mortos e das mortes dos brasileiros vítimas do coronavírus. O julgamento político avaliará a responsabilidade da tragédia consorciada entre o presidente e o vírus.

 

 

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